O homem inventou regras para viver em harmonia,
deu nomes elegantes à própria perversidade;
hoje, a crueldade frequenta a academia
e aprende etiqueta para entrar na sociedade.
Que criatura admirável, tão civilizada!
Fere com palavras, sorri por educação.
Deixa uma alma em ruínas na beira da estrada
e chama de fraqueza qualquer pedido de atenção.
Há quem venda a mentira embrulhada em bondade,
quem plante vergonha no jardim de alguém
e depois ofereça, com falsa piedade,
um lenço ao ferido que não protegeu também.
A maldade, coitada, já não precisa de garras;
usa gravata, diplomas, discursos de paz.
Aprendeu que as máscaras mais bem costuradas
são aquelas que escondem o que ninguém quer ver por trás.
E nós, espectadores de tão nobre teatro,
aplaudimos o forte, silenciamos o menor.
É mais fácil chamar o sofrimento de fato
do que sujar as mãos tentando torná-lo menos pior.
Mas durmam tranquilos, senhores da virtude:
o mundo ainda reserva um prêmio especial
para quem disfarça a crueldade de atitude
e transforma a indiferença em comportamento normal.
Afinal, ser monstro exige certa delicadeza:
não basta destruir — é preciso convencer
que a vítima exagera na própria tristeza
e que o culpado só fez o que todos costumam fazer.
-
Autor:
Lux tenebris (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de outubro de 2026 21:45
- Comentário do autor sobre o poema: O poema “Manual de Boas Maneiras para Monstros” aborda a crueldade humana disfarçada de civilidade, bondade e boas maneiras. Ele faz uma crítica à hipocrisia da sociedade, mostrando como algumas pessoas machucam outras emocionalmente, escondem suas verdadeiras intenções atrás de máscaras de virtude e ainda culpam as próprias vítimas pelo sofrimento que causaram. Além disso, o poema denuncia a omissão social diante das injustiças, retratando uma sociedade que frequentemente protege os culpados, silencia as vítimas e normaliza comportamentos cruéis. Por meio da ironia, do sarcasmo e de metáforas, a obra revela que a maldade nem sempre se manifesta de maneira evidente: muitas vezes, ela se esconde em discursos educados, falsas demonstrações de bondade e atitudes socialmente aceitas. Dessa forma, o poema transmite a ideia de que a verdadeira monstruosidade não está apenas em praticar a crueldade, mas também em disfarçá-la tão bem que ela passa a ser considerada normal, enquanto o sofrimento de quem foi ferido é tratado como exagero ou fraqueza.
- Categoria: Surrealista
- Visualizações: 6
- Usuários favoritos deste poema: BellaSelva

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.