Lux tenebris

Manual de Boas Maneiras para Monstros

O homem inventou regras para viver em harmonia,
deu nomes elegantes à própria perversidade;
hoje, a crueldade frequenta a academia
e aprende etiqueta para entrar na sociedade.

Que criatura admirável, tão civilizada!
Fere com palavras, sorri por educação.
Deixa uma alma em ruínas na beira da estrada
e chama de fraqueza qualquer pedido de atenção.

Há quem venda a mentira embrulhada em bondade,
quem plante vergonha no jardim de alguém
e depois ofereça, com falsa piedade,
um lenço ao ferido que não protegeu também.

A maldade, coitada, já não precisa de garras;
usa gravata, diplomas, discursos de paz.
Aprendeu que as máscaras mais bem costuradas
são aquelas que escondem o que ninguém quer ver por trás.

E nós, espectadores de tão nobre teatro,
aplaudimos o forte, silenciamos o menor.
É mais fácil chamar o sofrimento de fato
do que sujar as mãos tentando torná-lo menos pior.

Mas durmam tranquilos, senhores da virtude:
o mundo ainda reserva um prêmio especial
para quem disfarça a crueldade de atitude
e transforma a indiferença em comportamento normal.

Afinal, ser monstro exige certa delicadeza:
não basta destruir — é preciso convencer
que a vítima exagera na própria tristeza
e que o culpado só fez o que todos costumam fazer.