ALÉM DO TETO

Morlock


Assunto/Tema para o Poema Mesclado:

Para manter o eixo diante de um mundo louco, inventamos um ritual improvável — um absurdo próprio que se cumpre com rigor. Ao redor, o tempo arrasta-se cinzento, como se uma esponja velha e ressecada tivesse tentado, em vão, esfregar o céu sem jamais alcançar o azul.




ALÉM DO TETO


Neste mundo, cada um se vira como pode:
uns pulam no abismo, outros vivem do absurdo.
Há um gesto no rigor de quem nada espera,
enquanto o tempo, esponja seca, se arrasta em vão,
sem tocar o azul que o teto cinzento nos veda.
Nos desejamos no epicentro, lúcidos do fim,
mãos apertadas sob o teto que desaba.
Há um heroísmo mudo em cada passo; e em mim,
a ilusão cresce enquanto o medo se cala.
Mas o teto caiu — e lá no alto, surpresa:
havia azul.


Meu afeto busca um teto
Meu teto busca o coberto
Meu coberto busca o incerto
E a incerteza pula
De mesa em mesa
Até pairar na minha cabeça
E me fazer escrever
A escolha busca uma resposta
A resposta busca a consistência
A consistência que bate
Na consciência da minha mente
O arrepio busca o prazer
O prazer busca o porquê
Mas eu só gosto de escrever
O que mais posso fazer?
A coletividade do dizer
Busca entender o que
Mais pode se dizer
Quando se tem tudo e nada
Na mesma fala
E no mesmo tempo
O sensor apitou por dentro
É hora de coletar sonos
Por que por aqui
A insônia já tem tomado
Conta de mim
Acordei e do alto da janela
Houve uma surpresa:
Havia claridade
- Gigi -


Giro e a cada novo dia
Lanço-me ao abismo
Das famintas horas,
Empurro minha pedra
Monte acima
E me desfaço das certezas.
Olho para um céu
Onde as nuvens
Tentam calar a voz do sol
Que grita lá de cima:
O mundo é de Sísifo,
A vida é um eterno ritual
Renovado a cada nascimento,
Encerrado a cada morte,
Pois o mundo deve continuar
Girando e a pedra
Subir o monte.
-P.V.


A loucura era um modo
de tingir de dourado as paredes do desastre,
de acender velas vermelhas nos corredores escuros
e adornar de flores aquilo que já cheirava a fim.
Inventávamos beleza entre a ferrugem e as ruínas,
como damas condenadas a um baile sem manhã,
dançando entre cortinas pesadas e rosas mortas,
rindo baixo diante da própria desgraça.
E, enquanto o mundo se desfazia lá fora,
fazíamos do caos um pequeno salão iluminado,
onde a morte, por uma noite,
parecia apenas mais uma convidada.


Procuro te ver além do teto
há sentimentos que valem mais
o seu existir preenche os espaços vazios
por isso gostaria que você estivesse aqui.
Não somos apenas fuzileiros de guerra
Seguimos sempre em frente
nos unindo por algo maior
nossos ideais da vida que construímos
pela pátria que nos acolhe com Amor de mãe.


Entrego a alma ao incógnito
Não procuro abrigo nem conforto
Deixo-me ir ao distante que não conheço
Sem pressa caminho observando as flores
O chão é firme e a paisagem variável
Vou descobrindo quem sou em meio aos fins
Ciclos adversos vão ficando, são esquecidos por mim
Então me desfaço calmamente dos limites
O futuro imaginário me chama insistentemente
Então eu vou! Vou bem além do teto
Claudio Reis


O mundo gira em surto e desatino,
enquanto o tempo arrasta-se cinzento.
Cai sobre nós o peso do destino,
como uma esponja gasta contra o vento.
Tenta o cansaço esfregar o céu,
mas esse azul recusa-se a surgir.
A realidade ergue o próprio véu,
na tentativa vã de nos cobrir.
Se tudo lá fora insiste em desabar,
na nossa própria lei eu me organizo.
Mantemos firme o eixo e a estrutura,
nessa rotina que nos traz abrigo.
Diante de uma terra em sã loucura,
O azul do céu não aparecer,
E a vida permanecer cinzenta, seguimos buscando além da ponte,
A paz que ainda nos sustenta.


Teto do Delírio
Enquanto subia o teto do mundo,
Vislumbrava o azul no celestial,
Suspirava desejos tão profundo,
Um sentimento que abraça de igual.
Recuperei as forças na subida,
E já parecia não ter mais volta,
Enquanto eu pensava na descida,
Soltei os demônios sem escolta.
E o mar parecia sublime e voraz,
Então me debati enquanto morria,
Até reter o fôlego contumaz.
Não decidi fazer essa corrida,
Da qual nos espera, destino mordaz,
No suado acordo do delírio à partida.
- Julian Lael


O teto não caiu: apodreceu em silêncio,
vertendo sombras sobre o que restou.
E o azul, antes promessa de recomeço,
era apenas outro sonho que desmoronou.
Caminhamos entre ruínas sem nome,
com os olhos cansados de procurar o além;
pois há prisões que não precisam de grades,
e céus que nos condenam a não ver ninguém.


Teto?
Pra que preciso?
Cobre-me o riso
Deboche sagaz
Da quase idônea
Dama voraz
Que de tudo faz
Uma guerra Santa
Céu cinzento?
É a manta
Que encobre a vergonha
A nudez tamanha
De se sentir despida
Excluída
Desprovida
De um plano B
Que cobriria o escândalo
E derramando sândalo
Nem mau cheiro
Causaria
Aquela grande afronta
De se fazer
Inocente
Indigente
E indulgente
Quanto a pagar
O custo daquele vitupério
E sobre um teto cinzento
Sem nada de luz
A caminhada produz
Cansaço
Fracasso
Que a nada alcança
Além do teto


Estou no teto do além,
mas ainda estou além do teto,
bem queria alcançar o teto,
mas infelizmente o único teto que consigo alcançar,
é o teto da boca.
Pena ter um teto mas não me sentir em casa,
sou um sem teto,
com teto,
a morar em casa,
a casa de alguém,
onde não está ninguém,
para além de alguém cujo nome do meio é Zé,
e que se sente um ninguém.
[de Luminoso, o Vitorioso]


Meu teto é apenas o limite de onde meus pensamentos conseguem chegar.


A Terra é um manicômio.
E os internos governam.
Isso explica tudo.
Ou nada.
O tempo? Uma esponja velha.
Esfrega o teto.
O azul não vem.
A gente se acostuma com o cinza.
É o normal.
Vives com lobos?
Uiva.
Mas uiva bem alto.
E antes que eles.
O bando respeita o estômago.
Não a alma.
A liberdade é o último vício dos derrotados.
Uma escolha.
Sempre a mesma.
Aceitar.
E cobrar, e cobrar.
A reação é tua.
O resto é deles.
O fogo é teu.
A carne, também.
A fome, essa ninguém tira.
Então o sol, por fim, cansa-se de fingir.
Não explode.
Apenas cospe.
Como um velho mal-humorado.
E ninguém uiva.
Ninguém escolhe.
Ninguém reage.
Apenas o silêncio.
E a consciência, essa cínica elegante,
De que o manicômio sempre foi o paraíso.
Só que sem a mentira.
E o teto?
O teto nunca existiu.
Foi só a esponja.
A esfregar.
A esfregar.
Até o azul pegar fogo.
[Ayalah Verônica]


Rasguei meu coração para parar seu sangramento quanto ao meu vc nem se deu ao lamento.
Te dei meu coração na mão e vc transformou em tormento.
{Garota dos brincos de hanafuda.}


Além do teto sem afeto me vejo a divagar.
Além do corpo eu sou um feto a começar.
Doeu e sempre doí te perder aonde está.
Com dor dormente no coração do meu lugar.
Além do teto houve afeto e amor de se amar.
Além do teto houve angustia sem se respeitar.
Além do tempo houve a vida.
Além da vida houve amor sem se amar.
Resta o tempo, o esperar continuo ultraje aqui para torturar.
Pois a vida já se foi, ampulheta a contar…
Resta a ânsia a impaciência e o futuro a amargar.
Resta o teto sem afeto, a vida a vagar…
- Marcelo Miranda Velten

Comentários +

Comentários1

  • Dimar M. S.

    Vejo o mundo da minha varanda
    Sob o teto invisível
    Além da fome, verdade,
    Da dignidade resiliente
    Meu lar não tem muros
    Viver além do teto
    Teto de sonhos e memórias
    Dias em viagem, tempos mórbidos
    Tempos loucos aos berros
    Ironia de ilusão da ótica
    Quiçá ótica da ilusão
    Olhos que escrevem casos e acasos
    Luz arrefece impiedosamente
    Lágrimas horizontais à beira
    Do silêncio e agonia
    Desalinho de crakras de tempos atemporais
    Ora, tempos viris vão à pasargada
    O desespero ainda gesta a esperança
    De sol fraterno e riso contagiante
    Apesar de dias melancólicos
    O sol e o mar ainda escrevem poemas de força, foco e fé.

    Dimar Monteiro Sanca



Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.