A lNSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER

Ayalah Verônica Berg


Tema:
A leveza insustentável do ser pesa entre a dor e o desejo.
Entre o real e o etéreo, somos o caos aceito.
O tempo esculpe a fragilidade. A incerteza domina.
No fim, a vida crua nos une, e a leveza resiste ao medo.

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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER


A verdade fere os olhos.
Corta a luz.
Que vá quem quer.
Que fuja quem teme.
Nós ficamos.
O corpo é o tempo.
A carne, o agora.
O resto, o nada.
A fome que me come é teu desejo,
e a tua boca é a minha fome.
Fomos feitos no fogo, no acaso,
e o que em nós se toca, não se explica.
No chão deste quarto, o imundo
é um deus que nos ama e nos mata.
Eu aceito, tu aceitas, e o mundo
é esta queda lenta que nos ata.
[de Ayalah Verônica]


A Dança da Solidão
A solidão dança comigo,
Não permite ao chão chegar,
Nesse salão vazio sigo,
Sem música e sem o par.
Ela nos braços me conduz,
Com esses seus passos firmes,
E me aperta o peito na luz,
Nos sonhos lisos e íngremes.
Nessa dança me faz girar,
Macabra e triste, só lamento,
Espaço em que perde o ar.
Não há como fugir, voar...
Solidão parceira no evento,
Minha sombra, meu doce lar.
- Por Jorge E. Leal


Eu sou um ser.
Que custa ser.
Eu sou um ser vivo.
Que vivo ser.
Há dias que quero deixar de ser vivo...
Tem outros que quero deixar de ser morto.
Tenho que deixar de ser morto, para ver se vivo
e não vivo absorto.
Mas se tentar ser vivo enquanto estou morto
me tornarei um morto vivo, ao vivo.
De dia vivo morto de sono
e de noite enquanto durmo, sou um morto que está vivo
que enquanto vivo, vivia morto para deixar de ser vivo.
[de Luminoso, o Vitorioso]


O corte é preciso, não busca a vingança ou o aço,
Desfaz o tumor da mentira que o tempo criou.
Onde a ignorância rascunha e estende o cansaço,
A lâmina firme da mente o real demarcou.
Não cabe o palpite, o remendo ou a meia verdade,
Na mesa onde a técnica opera a desilusão.
Saber é expor a ferida de uma sociedade,
Que chora o sintoma, mas nega a autocorreção.
Anestesiam as mentes com mitos e pedras na mão,
Temendo o bisturi que separa o erro do ser.
Mas nós operamos no escuro com a exatidão
De quem não precisa da aprovação para ver.
Que o traço cirúrgico guie a nossa insistência,
No parto difícil de um mundo que teima em nascer.
Se a massa prefere o delírio, sejamos ciência,
Pois só quem conhece o corte aprende a vencer
[ de CORASSIS ]


Que proveito há em contar os dias,
se o tempo não se demora por ninguém?
A manhã sucede a noite,
a noite devolve lugar à manhã,
e o homem atravessa ambas
como sombra que desconhece o próprio comprimento.
A solidão não é inimiga;
é um espelho que não lisonjeia.
Nela caem as máscaras,
e cada voz aprende
o peso do próprio silêncio.
O passado conserva apenas vestígios.
O futuro alimenta promessas
que talvez jamais encontrem morada.
Ao homem resta o instante,
e até o instante lhe escapa
antes que possa chamá-lo de seu.
Muitos edificam monumentos para o nome,
outros ajuntam riquezas para os filhos,
outros perseguem honra entre os homens.
Mas o vento não distingue
o palácio da ruína,
nem a poeira pergunta
a quem pertenceu a coroa.
Na casa da memória
o júbilo e o pranto repartem a mesma mesa.
A lembrança adoça o que feriu
e amarga o que foi doce.
Assim procede o coração:
guarda e transforma,
recorda e inventa.
Não digas: "Agora compreendo todas as coisas."
O entendimento do homem
é como uma lâmpada na neblina:
ilumina alguns passos,
mas não alcança o fim do caminho.
Há dias em que a justiça parece tardia,
e dias em que o injusto prospera.
Há sementes que secam em terra fértil
e pedras das quais brotam flores.
Quem poderá dizer
que dominou os caminhos da existência?
Não te apresses em chamar eterno
aquilo que apenas durou mais do que tu.
As montanhas se desgastam,
os rios mudam de curso,
os impérios tornam-se pó,
e até as palavras mais fortes
encontram o esquecimento.
Ainda assim, o homem continua.
Ama sabendo da perda.
Constrói sabendo da ruína.
Espera sabendo da incerteza.
Talvez seja essa
a mais discreta das sabedorias.
Pois não nos foi concedido
governar o tempo,
nem desvendar todos os mistérios.
Foi-nos concedido apenas caminhar,
com mãos abertas para o que chega,
e coração firme para o que parte.
E quem aprende a receber
o silêncio sem desespero,
e a incerteza sem orgulho,
já encontrou mais sabedoria
do que aquele que imaginou possuir
todas as respostas.
(Charles Araujo)


A vida, um suspiro em seda,
esculpe a fragilidade dos dias.
Somos o murmúrio do ser,
um instante entre a dor que queima
e o desejo que pulsa,
uma febre antiga na alma.
O real se desfaz em aquarela,
o etéreo torna-se poeira em nossos dedos.
Aceitamos o caos como um abraço,
o desconcerto, a única verdade.
O tempo, escultor paciente,
deixa suas marcas brandas em nossa pele,
e a incerteza, sombra infiel,
fragmenta-se ao redor de cada passo.
E no fim, quando os véus se desfazem,
e a tristeza, em sua crueza,
nos encontra despidos,
onde a vaidade não encontra chão,
é essa leveza, que teimou em existir,
que resiste ao medo.
Não a ausência de peso, mas a arte
de carregar a falta de ser,
e ainda assim, voar.
Um voo sem rumo definido,
apenas a dança sutil
da existência que se permite
ser leve, mesmo sob o peso
de nossas asas invisíveis.
por Morlock


Eu deveria existir leve
mas sou pesado em pensamentos,
se essa vida é tão breve
adiantaria temer o tempo?
Num momento aqui estou
no outro já não sou visto,
importa viver o que restou
e brincar com o vento atrevido.
insustentável é a própria beleza
necessito de profundidade,
porém maior é a leveza
que me faz ser livre de verdade.


No fim, a vida crua nos encontra
sem máscaras e sem promessas.
E talvez seja justamente nela,
em sua imperfeição inevitável,
que todos nos reconheçamos.


A leveza insustentável do ser pesa entre a dor e o desejo,
Nesse balanço incerto onde a alma busca um lampejo.
Entre o real e o etéreo, somos o caos aceito,
Um labirinto de opostos que guardamos no peito.
O tempo esculpe a fragilidade de tudo o que se imagina,
Enquanto o chão nos escapa e a incerteza domina.
Mas no fim, a vida crua nos une em sua verdade mais pura,
E a leveza resiste ao medo, feito luz que na noite fura.



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