Ela é estrangeira no seu próprio corpo,
falando uma linguagem nova e estranha,
antecipada por um destino louco,
no calendário que o tempo desmanha.
A cada dia dá passos mais largos,
mas a mente prega peças e enganos;
restam os conflitos e os dias amargos,
o charme perdido dos seus velhos anos.
Até agora as lembranças resistem,
não foram trancadas na escuridão,
mas os fios do presente já não subsistem
para os filhos que rostos já não terão.
Mãe e pai, avós da sepultura,
surgem do além para o seu deleite;
visitam-na vezes na noite escura,
enquanto a imaginação os aceite.
Não quer viver assim, no abismo!
Estrangeira de um corpo sem pseudônimo,
onde qualquer nome serve de batismo,
perdida em um vazio sinônimo.
Como luvas apertadas e sorrisos confusos,
qualquer bocado anestesia esta dor,
entre ponteiros e parafusos difusos,
antes que a morte apague a cor.
A saudade já não é um segredo,
o senso foi embora, remediado;
o abstrato a consome com medo,
e o dia a dia vive desatualizado.
Presa na névoa, sem eira nem beira,
no looping eterno da mesmíssima engrenagem,
a memória que apaga a fogueira,
um viajante sem rumo e sem bagagem.
Dedos cansados afagam o vidro espesso,do porta-retrato na mesa da sala; o álbum antigo, virado do avesso, guarda um passado que fita e não fala. Lágrimas choram pelos que já partiram, vivos na mente que o tempo desfez; enquanto os olhos, que agora a assistem, tornam-se estranhos mais uma vez.
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Autor:
CORASSIS (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 19 de setembro de 2026 23:00
- Comentário do autor sobre o poema: Imagem de AartlistDesign por Pixabay Tentando retratar de forma visceral e melancólica a perda de identidade e a fragmentação da memória, evocando a experiência do Alzheimer por meio da metáfora de ser um "estrangeiro do próprio corpo". O texto explora a dor de uma mente que falha, o contraste entre a desorientação e as lembranças do passado, e a sensação de viver em um looping constante.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 7
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Ayalah Verônica Berg, Maria Ventania

Offline)
Comentários2
A mente humana é um emaranhado de fios conectando-se passado e presente, no Alzheimer os fios do passado se tornam mais nítidos enquanto os do presente se desfazem. Doença triste que precisa ser mais pesquisada e terá um dia a cura. A poesia do mestre Corassis faz uma analogia brilhante sobre esse processo. Ficou perfeita!!! Beijos ao mestre.
Um texto poético ímpar.
O poema capta com empatia e tom elegíaco a angústia existencial de "desaparecer" em vida, mostrando o contraste entre o passado vivo na mente debilitada e um presente fragmentado, que caminha gradualmente para o silêncio final.
Abraços ao meu querido e grande amigo Corassis
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