CORASSIS

Estrangeira

Ela é estrangeira no seu próprio corpo,
falando uma linguagem nova e estranha,
antecipada por um destino louco,
no calendário que o tempo desmanha.
A cada dia dá passos mais largos,
mas a mente  prega peças e enganos;
restam  os conflitos e os dias amargos,
o charme perdido dos seus velhos anos.

Até agora as lembranças resistem,
não foram trancadas na escuridão,
mas os fios do presente já não subsistem
para os filhos que rostos já não terão.
Mãe e pai, avós da sepultura,
surgem do além para o seu deleite;
visitam-na vezes na noite escura,
enquanto a imaginação os aceite.

Não quer viver assim, no abismo!
Estrangeira de um corpo sem pseudônimo,
onde qualquer nome serve de batismo,
perdida em um vazio sinônimo.
Como luvas apertadas e sorrisos confusos,
qualquer bocado anestesia esta dor,
entre ponteiros e parafusos difusos,
antes que a morte apague a cor.

A saudade já não é um segredo,
o senso foi embora, remediado;
o abstrato a consome com medo,
e o dia a dia vive desatualizado.
Presa na névoa, sem eira nem beira,
no looping eterno da mesmíssima engrenagem,
 a memória que apaga a fogueira,
um viajante sem rumo e sem bagagem.

Dedos cansados afagam o vidro espesso,do porta-retrato na mesa da sala; o álbum antigo, virado do avesso, guarda um passado que fita e não fala. Lágrimas choram pelos que já partiram, vivos na mente que o tempo desfez; enquanto os olhos, que agora a assistem, tornam-se estranhos mais uma vez.