Amar é o que resta

Ayalah Verônica Berg

 

Ela é o que escapa à tinta,
o contorno que a mão trai.
 
Música que ninguém cantou
porque nasceu já ferida.
 
Campo de margaridas amarelas,
plantação que o tempo despreza
e ainda assim floresce
contra o peito descuidado do mundo.
 
Cuidamos do que apodrece
com dedos de jardineiro exausto —
a afeição é uma ferida
que se rega de joelhos.
 
Andamos noites adentro
atrás de salvação nenhuma,
e o perigo acende
um prazer quase sagrado:
a ilusão de buscar algo
é o único sol que não cega.
 
O olhar que a arte oferece
é terra molhada,
faca cravada em fruta podre,
pressentimento da deusa
escorrendo pelas frestas.
 
Ninguém a vê por inteiro.
E talvez seja isso
que a torna tão doce:
não ser vista,
e ainda assim
acordar.
 
 
Amar é o que resta
de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de agosto de 2026 11:54
  • Comentário do autor sobre o poema: Demorei muito e perdi o prazo do mesclado do Patrick... passei as últimas 16 horas escrevendo este poema, regada a muita cafeína, água, doces e vinho... sem contar com meu marido me ameaçando de me trocar pela concubina se eu não fosse para a cama “dormir”... hehe. Então, dei o título de "Amar é o que resta" e postei no Substack e aqui. E agora, tchau...! –Verônica Berg
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 13
  • Usuários favoritos deste poema: patrick silva, CORASSIS
Comentários +

Comentários4

  • patrick silva

    belas palavras que se encaixam perfeitamente em seus detalhes

  • Francisco Queiroz

    Se resta, é porque ficou. Por vezes, o resto é a parte mais importante... Resistência vem da mesma etimologia de resto, e se o amor tem uma qualidade, é a sua resistência, a sua resiliência... Muito bom, Ayalah

    • Ayalah Verônica Berg

      Meu poema é bem simples: começa com ela, que pode ser eu, ou a arte, ou a resiliência... e termina com ela... ela tentando ser melancólica e positiva... o meio do poema é bem erótico... mas, rapidinho, puxo meu punhal debaixo da saia, e cravo no estômago do meu amado quando pergunto: qual o sentido da vida?... hehe. Dá para imaginar que tive influência de Drummond, Adélia Prado e Nietzsche?

    • CORASSIS

      Lembra a atmosfera de poetas do século XX (como Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto), onde o lirismo convive com a lucidez cortante e o cansaço do mundo. Parabéns .

      • Ayalah Verônica Berg

        Corassis, você tem cultura poética... é a segunda pessoa neste site que reconheceu, em um poema, uma das minhas influências. Na resposta ao Francisco (acima) e ao Sérgio Neves (abaixo), falo um pouco sobre o poema... agradeço a leitura.

      • Sergio Neves

        SERGIO NEVES - ...16 horas? ...16 horas pra tu escreveres esse poema? ...ah! ...se eu tivesse essa capacidade! ...eu estou tentando completar alguns "rascunhos" -tentando transformá-los em alguma coisa ao menos inteligível há quase 16 anos e não consigo! ...não está havendo cafeinas, vinhos, Brahmas e "Jackie Daniel's", que dê jeito! ...e vem tu falar em 16 horas como sendo um tempo extenso?! ...ah! ...quem me dera se assim comigo fosse! // ...bom, quanto a esse teu escrito "dezesseishorense", tá bastante complexo! ...mas é uma complexidade que dá gosto! ...dá gosto por fazer com que exercitemos os neurônios... -e isso faz um bem danado! ...e quando ao final desse todo "exercício" a "luz" se dá é gratificante! ...e a "luz" se deu num meu segundo olhar...,...há subjetividades mil que "no conjunto dá obra" dá bem a ideia do tudo o que te inspiraste,...do todo do contexto...,...gostei! ...muito! // ...esse "blá, blá, blá" todo fica sempre em segundo plano quando na verdade "amar é o que resta"... // ...eita! ..."falei" demais outra vez! ...prometo da próxima vez ser mais "econômico",...se tu não vier com essas tuas todas provocações (literárias e outras mais),
        é claro... /// Carinhos.

        • Ayalah Verônica Berg

          Na verdade, minha poesia hoje, é bem erótica... eu me casei e só penso em sexo... se eu soubesse que casamento era tão bom, teria me casado aos 18... hehehe.
          Nos meus poemas, sempre brinco com a ambiguidade, que é o que faço melhor... permito múltiplas interpretações (amor, arte, vida, uma pessoa, o próprio ato s...).
          Ah, acordei agora e meu humor está reinando... obrigada pela leitura.



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