Amar é o que resta

Ayalah Verônica Berg

 

Ela é o que escapa à tinta,
o contorno que a mão trai.
 
Música que ninguém cantou
porque nasceu já ferida.
 
Campo de margaridas amarelas,
plantação que o tempo despreza
e ainda assim floresce
contra o peito descuidado do mundo.
 
Cuidamos do que apodrece
com dedos de jardineiro exausto —
a afeição é uma ferida
que se rega de joelhos.
 
Andamos noites adentro
atrás de salvação nenhuma,
e o perigo acende
um prazer quase sagrado:
a ilusão de buscar algo
é o único sol que não cega.
 
O olhar que a arte oferece
é terra molhada,
faca cravada em fruta podre,
pressentimento da deusa
escorrendo pelas frestas.
 
Ninguém a vê por inteiro.
E talvez seja isso
que a torna tão doce:
não ser vista,
e ainda assim
acordar.
 
 
Amar é o que resta
de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de agosto de 2026 11:54
  • Comentário do autor sobre o poema: Demorei muito e perdi o prazo do mesclado do Patrick... passei as últimas 16 horas escrevendo este poema, regada a muita cafeína, água, doces e vinho... sem contar com meu marido me ameaçando de me trocar pela concubina se eu não fosse para a cama “dormir”... hehe. Então, dei o título de "Amar é o que resta" e postei no Substack e aqui. E agora, tchau...! –Verônica Berg
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 67
  • Usuários favoritos deste poema: patrick silva, CORASSIS


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