Ela é o que escapa à tinta,
o contorno que a mão trai.
Música que ninguém cantou
porque nasceu já ferida.
Campo de margaridas amarelas,
plantação que o tempo despreza
e ainda assim floresce
contra o peito descuidado do mundo.
Cuidamos do que apodrece
com dedos de jardineiro exausto —
a afeição é uma ferida
que se rega de joelhos.
Andamos noites adentro
atrás de salvação nenhuma,
e o perigo acende
um prazer quase sagrado:
a ilusão de buscar algo
é o único sol que não cega.
O olhar que a arte oferece
é terra molhada,
faca cravada em fruta podre,
pressentimento da deusa
escorrendo pelas frestas.
Ninguém a vê por inteiro.
E talvez seja isso
que a torna tão doce:
não ser vista,
e ainda assim
acordar.
Amar é o que resta
de Ayalah Verônica Berg