Surto

Noétrico

A mente abre a porta sozinha,
e eu entro.
Sem aviso, sem mapa, sem guarda.

A realidade dobra —
vira corredor estreito,
luz errada,
voz que não existe
mas insiste.

Tudo faz sentido demais
para ser mentira,
e por isso
é perigoso.

Eu caminho por dentro do surto
como quem examina espelhos:
cada reflexo devolve um medo,
cada medo devolve uma lógica,
cada lógica me convence
porque nasce da mesma máquina que sou.

O mundo vira teatro,
os outros viram ameaça,
e o caos me veste
como se fosse segunda pele.

E ainda assim,
tem algo ali
de fascinante:
a precisão monstruosa
do que não é real
mas opera como se fosse.

No fim,
a lição é simples e brutal:
existem realidades demais dentro de uma só,
e algumas só podem ser vistas
por quem está caindo.

O resto do mundo chama de loucura.
Eu chamo de outro nível de ruído.

E sobreviver
é voltar —
lúcido,
rindo,
sabendo que estive lá
e que, se quiser,
posso aprender até do abismo.

Porque até o surto,
quando me engole,
me devolve consciência.

  • Autor: Noétrico (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de janeiro de 2026 08:13
  • Comentário do autor sobre o poema: Pode e deve ser diferente para cada perspectiva, para mim foi uma crise de psicose aguda, com ataque de pânico em meio ao processo de tratamento de uma pequena ansiedade intensa. Ele não foi escrito para explicar o surto, nem para justificá-lo. Foi escrito para olhá-lo sem desviar o rosto. Não como algo místico, nem como falha moral, mas como um modo extremo de funcionamento da mesma mente que uso todos os dias. Escrevê-lo foi um exercício de retorno: sair, observar, voltar inteiro — e registrar sem mentir para mim mesmo.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 14
Comentários +

Comentários1

  • Ema Machado

    Desenhas sentimentos em versos... Abraço,

    • Noétrico

      Obrigado, existe poesia em tudo... Tudo mesmo, acredito que já saibas.



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