A mente abre a porta sozinha,
e eu entro.
Sem aviso, sem mapa, sem guarda.
A realidade dobra —
vira corredor estreito,
luz errada,
voz que não existe
mas insiste.
Tudo faz sentido demais
para ser mentira,
e por isso
é perigoso.
Eu caminho por dentro do surto
como quem examina espelhos:
cada reflexo devolve um medo,
cada medo devolve uma lógica,
cada lógica me convence
porque nasce da mesma máquina que sou.
O mundo vira teatro,
os outros viram ameaça,
e o caos me veste
como se fosse segunda pele.
E ainda assim,
tem algo ali
de fascinante:
a precisão monstruosa
do que não é real
mas opera como se fosse.
No fim,
a lição é simples e brutal:
existem realidades demais dentro de uma só,
e algumas só podem ser vistas
por quem está caindo.
O resto do mundo chama de loucura.
Eu chamo de outro nível de ruído.
E sobreviver
é voltar —
lúcido,
rindo,
sabendo que estive lá
e que, se quiser,
posso aprender até do abismo.
Porque até o surto,
quando me engole,
me devolve consciência.