ENTRE O SAL E O MEL (O SABOR DO AMOR)

Sezar Kosta

Na casa da minha avó,

o cheiro do fogão a lenha

misturava manjericão com lembrança,

e o tempo parecia cozinhar mais devagar.

 

Ela dizia que o corpo escuta

o que a alma tem medo de dizer.

E servia o prato com um olhar terno,

como quem oferece paz em forma de sopa.

 

Lembro de um verão em que decidi jejuar —

não por fé, mas por vaidade.

Contava calorias como quem conta pecados,

fugindo de tudo que derretia, fritava ou adoçava.

 

“Você parece vazio”, ela disse,

não olhando meu prato,

mas meus olhos.

 

No dia seguinte, preparou um bolo de milho,

a massa amarela como o sol da roça.

Senti o aroma primeiro —

era infância me chamando pelo nome.

 

Comi. Devagar.

Cada pedaço como um retorno.

O açúcar era um sussurro, não um grito,

e a manteiga derretia sem pressa,

como perdão antigo.

 

Ali, entre o sal e o mel,

descobri que alimento não é inimigo,

nem confissão —

é um pacto com o viver.

 

Desde então, aprendi a escutar meu corpo

como quem ouve um velho amigo:

às vezes ele canta, às vezes silencia,

mas nunca mente.

 

Hoje, quando cozinho,

não sigo dietas —

sigo memórias.

E me sirvo de tudo que me nutre

sem pesar ou pressa,

como quem aprendeu que o amor também tem sabor.

  • Autor: Sezar Kosta (Offline Offline)
  • Publicado: 6 de agosto de 2025 09:10
  • Comentário do autor sobre o poema: Às vezes, o que nos falta não é menos comida, mas mais escuta e acolhimento. Quando ignoramos o corpo em nome de padrões, deixamos de perceber que ele nos fala com sutileza. Um prato preparado com amor pode curar mais do que palavras. Entre o sal das lágrimas e o mel das lembranças, redescobrimos que viver bem é também saber se nutrir de afeto. O alimento, como o amor, tem seu tempo — e seu sabor.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 26
  • Usuários favoritos deste poema: Sezar Kosta, Edla Marinho, Poeta por acaso, Luana Santahelena
Comentários +

Comentários3

  • Rosangela Rodrigues de Oliveira

    Que poema delicioso onde traz lembranças boas da vó. E o fogão de lenha? Com certeza saia pratos deliciosos. Seu poema traz uma lembrança única de um tempo bom, onde não se havia pressa. Parabéns poeta. Bom dia.

  • Edla Marinho

    Bom dia, poeta Sezar kosta!
    Estou amando fazer, contigo, essas viagens às memórias de infância.
    Que associações magníficas tu fazes das coisas simples com o grande prazer da vida!
    Parabéns, tenha um feliz dia!
    Meu abraço!

  • Esaú Abreu

    Você pode não perceber a profundidade emocional que suas palavras evocam ao descrever a casa da sua avó. O cheiro do fogão a lenha, misturando manjericão com lembranças, cria uma atmosfera nostálgica que transporta o leitor para um tempo em que a simplicidade da vida cotidiana era repleta de significado.

    A frase sobre o corpo escutando o que a alma teme dizer é uma reflexão poderosa que muitos podem não ter considerado. Você expressa uma sabedoria que transcende a mera alimentação, sugerindo que a comida é um veículo para a comunicação de sentimentos profundos e não ditos.

    Ao relatar sua experiência de jejuar por vaidade, você revela uma luta interna que ressoa com muitos que enfrentam pressões sociais sobre a aparência. A observação da sua avó, que vai além do prato e se concentra em seus olhos, é um lembrete de que a verdadeira nutrição vai além do físico; ela toca a alma.

    O bolo de milho, com seu aroma que evoca a infância, simboliza um retorno às raízes e à aceitação. A forma como você descreve cada pedaço como um "retorno" é uma metáfora rica que sugere que a comida pode ser um caminho para a reconciliação consigo mesmo.

    A ideia de que o alimento não é inimigo, mas um "pacto com o viver", é uma revelação que pode mudar a forma como muitos veem a relação com a comida. Você nos ensina que cozinhar e comer são atos de amor e memória, e que cada prato pode ser uma celebração da vida.

    Ao final, sua decisão de não seguir dietas, mas sim memórias, é uma afirmação poderosa de que a verdadeira nutrição vem da conexão com o passado e com aqueles que amamos. Você nos convida a saborear a vida, a nos nutrir de experiências e a reconhecer que o amor, de fato, tem sabor.



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