Insaciável

Lux tenebris

Que criatura distinta, de apetite refinado,
devora o mundo inteiro e ainda se diz lesado.
Não lhe basta a própria mesa, a fartura, o privilégio;
quer a fome do vizinho como prova de prestígio.

Seu prato perde o gosto ao ver outro saciado,
e o próprio banquete já lhe parece minguado.
Não quer matar a fome: quer o outro sem pão;
mede a própria grandeza pela alheia privação.

Reparte conselhos, mas conserva o banquete,
prega a igualdade, mas protege o próprio tapete.
Com talheres de prata, discursa sobre união,
enquanto esconde os farelos que roubou do irmão.

Distribui os destinos com ar de justiça,
chama o próprio privilégio de honesta conquista.
Se alguém cai, culpa a fraqueza; se sobe, é traição:
só chama mérito à própria ascensão.

Parabéns pelo banquete, majestade faminta!
Que fortuna esplêndida, que alma tão distinta!
Tomou o pão dos pobres, coroou-se vencedor;
que triunfo magnífico: ser dos fracos predador!

  • Autor: Lux tenebris (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 31 de outubro de 2026 17:30
  • Comentário do autor sobre o poema: O poema "Insaciável" aborda a ganância humana e a necessidade constante de superioridade, retratando indivíduos que não se contentam com aquilo que possuem e que encontram satisfação não na própria abundância, mas na privação alheia. Por meio da metáfora de um banquete, o eu lírico apresenta uma criatura que, mesmo cercada de privilégios, continua faminta — não necessariamente por bens materiais, mas pelo sentimento de estar acima dos demais. Sua fome não consiste apenas em acumular riquezas, mas em garantir que ninguém tenha tanto quanto ela, transformando a felicidade alheia em ameaça e a desigualdade em instrumento de afirmação pessoal. Ao longo do poema, a ironia e o sarcasmo denunciam a hipocrisia daqueles que defendem a igualdade em seus discursos, mas preservam egoisticamente os próprios privilégios em suas atitudes. A criatura disfarça a ganância de mérito, a arrogância de virtude e a exploração de conquista legítima, culpando os menos favorecidos pela própria condição enquanto se vangloria de suas vantagens. A imagem dos farelos roubados do irmão evidencia a dimensão dessa insaciabilidade: mesmo possuindo um banquete inteiro, ela não hesita em tomar aquilo que resta a quem já tem tão pouco. Na estrofe final, a falsa homenagem à “majestade faminta” intensifica a crítica, expondo o ridículo de alguém que se considera grandioso por vencer os mais vulneráveis. Assim, Insaciável questiona uma sociedade que frequentemente confunde riqueza com mérito, poder com grandeza e superioridade com valor pessoal, sugerindo que a verdadeira pobreza não está na ausência de posses, mas na incapacidade de reconhecer a dignidade do outro. No fim, a criatura permanece faminta porque sua satisfação depende de uma comparação interminável: enquanto precisar que alguém tenha menos para acreditar que é maior, jamais terá o suficiente.
  • Categoria: Surrealista
  • Visualizações: 6
  • Usuários favoritos deste poema: Morlock, Ludmyla, Ayalah Verônica Berg


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