Que criatura distinta, de apetite refinado,
devora o mundo inteiro e ainda se diz lesado.
Não lhe basta a própria mesa, a fartura, o privilégio;
quer a fome do vizinho como prova de prestígio.
Seu prato perde o gosto ao ver outro saciado,
e o próprio banquete já lhe parece minguado.
Não quer matar a fome: quer o outro sem pão;
mede a própria grandeza pela alheia privação.
Reparte conselhos, mas conserva o banquete,
prega a igualdade, mas protege o próprio tapete.
Com talheres de prata, discursa sobre união,
enquanto esconde os farelos que roubou do irmão.
Distribui os destinos com ar de justiça,
chama o próprio privilégio de honesta conquista.
Se alguém cai, culpa a fraqueza; se sobe, é traição:
só chama mérito à própria ascensão.
Parabéns pelo banquete, majestade faminta!
Que fortuna esplêndida, que alma tão distinta!
Tomou o pão dos pobres, coroou-se vencedor;
que triunfo magnífico: ser dos fracos predador!