A badalada do xote ensurdecia os ouvidos
Daqueles que se recusavam a escutar
Daqueles que fingiam não perceber
Dos que esconderam a sanfona nos confins de um velho armário
E dos que aposentaram os pés, renegando o compasso da dança
De repente, ouviram um chamado
Já não havia subterfúgio capaz de abafá-lo
A alegria, outrora tímida, transpôs as muralhas do castelo
Poderia um muro obstar à passagem de uma melodia?
No alto da torre, a princesa contemplava a banda
Traziam-lhe rosas vermelhas
Temia que maculassem a alvura de seu vestido
Sem perceber que a poeira, há muito, lhe usurpara a brancura
Amarelecendo o tecido sob o peso dos anos
À janela, um guerreiro trajado de saltimbanco aproximava-se
Prometeu-lhe uma dança
Receosa, desceu ao jardim
Pousou os pés sobre os dele
Com a familiaridade de quem jamais precisara aprender aquele passo
A cantiga era nova
A melodia, porém, já lhes habitava a memória
Partilhavam-na antes mesmo de se encontrarem
O antigo e o novo entrelaçavam-se naquele amor
Doçura no amargor
Familiaridade no inédito
E um mundo inteiro que, por um instante, lhes pareceu pertencer
Somente deles, somente dela, somente dele, somente meu
Mas as contradições, insidiosas, começaram a desafinar a música
Os espinhos das rosas passaram a dilacerar a pele
Quem, afinal, havia manchado o vestido de vermelho?
O sangue que tingia a armadura era dela
O vermelho das pétalas, que maculava o tecido, era dele
Acusados e ressentidos,
não perceberam que a banda ainda os aguardava
Fiel à melodia, sem jamais interromper o compasso
A princesa tornou a subir à torre
Mas deteve-se na escadaria
O cavaleiro-saltimbanco viria resgatá-la desta vez?
Sentou-se num degrau
Já não vestia o mesmo branco
Trazia consigo uma rosa
Entre a memória do que fora e a incerteza do que ainda poderia ser,
guardava, além da fortaleza, a esperança de dançarem outra vez
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Autor:
felicity for now (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 31 de outubro de 2026 08:58
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema aborda o nascimento de um amor antigo e novo. Não se sabe se ele ainda acontecerá, tampouco o que poderia ter sido. Uma breve dança, familiar e inédita, pode terminar antes mesmo do fim da música; pode também continuar, ainda que já não haja melodia. Afinal, o tempo não é capaz de apagar aquilo que desejamos recordar, nem de nos impedir de recomeçar. O cavaleiro ainda pode ver através das frestas, e agora a princesa já conhece o caminho para fora da torre.
- Categoria: Amor
- Visualizações: 3

Offline)
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