felicity for now

Relicário de um Antigo Amor Novo

A badalada do xote ensurdecia os ouvidos
Daqueles que se recusavam a escutar
Daqueles que fingiam não perceber
Dos que esconderam a sanfona nos confins de um velho armário
E dos que aposentaram os pés, renegando o compasso da dança

De repente, ouviram um chamado
Já não havia subterfúgio capaz de abafá-lo
A alegria, outrora tímida, transpôs as muralhas do castelo
Poderia um muro obstar à passagem de uma melodia?

No alto da torre, a princesa contemplava a banda
Traziam-lhe rosas vermelhas
Temia que maculassem a alvura de seu vestido
Sem perceber que a poeira, há muito, lhe usurpara a brancura
Amarelecendo o tecido sob o peso dos anos

À janela, um guerreiro trajado de saltimbanco aproximava-se
Prometeu-lhe uma dança
Receosa, desceu ao jardim
Pousou os pés sobre os dele
Com a familiaridade de quem jamais precisara aprender aquele passo

A cantiga era nova
A melodia, porém, já lhes habitava a memória
Partilhavam-na antes mesmo de se encontrarem
O antigo e o novo entrelaçavam-se naquele amor
Doçura no amargor
Familiaridade no inédito
E um mundo inteiro que, por um instante, lhes pareceu pertencer
Somente deles, somente dela, somente dele, somente meu

Mas as contradições, insidiosas, começaram a desafinar a música
Os espinhos das rosas passaram a dilacerar a pele
Quem, afinal, havia manchado o vestido de vermelho?
O sangue que tingia a armadura era dela
O vermelho das pétalas, que maculava o tecido, era dele

Acusados e ressentidos,
não perceberam que a banda ainda os aguardava
Fiel à melodia, sem jamais interromper o compasso

A princesa tornou a subir à torre
Mas deteve-se na escadaria
O cavaleiro-saltimbanco viria resgatá-la desta vez?

Sentou-se num degrau
Já não vestia o mesmo branco
Trazia consigo uma rosa
Entre a memória do que fora e a incerteza do que ainda poderia ser,
guardava, além da fortaleza, a esperança de dançarem outra vez