A Culpa de Ter Nascido do Lado Errado

Lux tenebris

Uns nascem com chaves, outros, diante dos muros,
uns herdam impérios, outros, a obrigação
de provar que merecem os próprios futuros,
como se a fome fosse falta de ambição.

Que bela justiça, que cálculo perfeito:
o berço distribui a largada e o troféu.
Quem nasce no luxo já nasce com jeito;
quem nasce na lama precisa convencer o céu.

O rico chama herança de mérito alcançado,
o pobre ouve que basta querer vencer.
É curioso como o destino é tão bem-educado:
sempre favorece quem já tem poder.

Nas vitrines, a fartura desfila elegante;
nas calçadas, a miséria aprende a esperar.
E o mundo, tão nobre, segue adiante,
incomodado com quem não pode comprar.

Se alguém cai, perguntam por que não correu;
se alguém passa fome, sugerem trabalhar.
Ninguém pergunta quanto o caminho lhe ofereceu,
nem quantas portas precisou encontrar fechadas.

A sociedade ergue estátuas ao vencedor,
mas esquece quem largou sem ter onde pisar.
Depois chama de escolha a ausência de opção
e de fracasso o que nunca pôde evitar.

No fim, todos recebem a mesma sentença:
“Seu destino é apenas fruto do que fizer.”
E a desigualdade, vestida de meritocracia,
agradece em silêncio por ninguém a perceber.

  • Autor: Lux tenebris (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de outubro de 2026 16:59
  • Comentário do autor sobre o poema: A inspiração para este poema nasce da desigualdade social presente na sociedade brasileira e da maneira como as pessoas são julgadas pelas condições em que nasceram. Em um país marcado por profundas diferenças econômicas, enquanto alguns crescem cercados de privilégios e oportunidades, outros precisam lutar diariamente para conquistar aquilo que deveria ser um direito básico. Ainda assim, existe uma tendência de atribuir o sucesso exclusivamente ao mérito individual e a pobreza à falta de esforço, como se todos partissem do mesmo lugar e tivessem as mesmas possibilidades. O poema pretende questionar essa lógica por meio da ironia e do sarcasmo, expondo a hipocrisia de uma sociedade que frequentemente ignora as barreiras enfrentadas pelos mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, responsabiliza essas pessoas pela própria condição. A crítica também se dirige à indiferença diante do sofrimento alheio e à facilidade com que os privilégios são confundidos com merecimento. O título, "A Culpa de Ter Nascido do Lado Errado", representa a injustiça de condenar alguém por circunstâncias que não escolheu. Afinal, ninguém decide em qual família nascer, quais recursos terá à disposição ou quais obstáculos precisará enfrentar. A proposta é provocar uma reflexão sobre uma sociedade que distribui oportunidades de maneira desigual, mas insiste em julgar todos pelos mesmos critérios. Mais do que despertar compaixão, o poema busca questionar valores, revelar contradições e confrontar o leitor com uma pergunta incômoda: se ninguém escolhe o ponto de partida da própria vida, por que tantas pessoas são tratadas como culpadas por terem começado tão longe da linha de chegada?
  • Categoria: Sociopolítico
  • Visualizações: 6
  • Usuários favoritos deste poema: Morlock, Rebecca, Michel F.M., Ayalah Verônica Berg


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