Uns nascem com chaves, outros, diante dos muros,
uns herdam impérios, outros, a obrigação
de provar que merecem os próprios futuros,
como se a fome fosse falta de ambição.
Que bela justiça, que cálculo perfeito:
o berço distribui a largada e o troféu.
Quem nasce no luxo já nasce com jeito;
quem nasce na lama precisa convencer o céu.
O rico chama herança de mérito alcançado,
o pobre ouve que basta querer vencer.
É curioso como o destino é tão bem-educado:
sempre favorece quem já tem poder.
Nas vitrines, a fartura desfila elegante;
nas calçadas, a miséria aprende a esperar.
E o mundo, tão nobre, segue adiante,
incomodado com quem não pode comprar.
Se alguém cai, perguntam por que não correu;
se alguém passa fome, sugerem trabalhar.
Ninguém pergunta quanto o caminho lhe ofereceu,
nem quantas portas precisou encontrar fechadas.
A sociedade ergue estátuas ao vencedor,
mas esquece quem largou sem ter onde pisar.
Depois chama de escolha a ausência de opção
e de fracasso o que nunca pôde evitar.
No fim, todos recebem a mesma sentença:
“Seu destino é apenas fruto do que fizer.”
E a desigualdade, vestida de meritocracia,
agradece em silêncio por ninguém a perceber.