Humano mundo lugar horrível,
Espaço vasto
E detestável.
-
Escorre o tempo esperança escoa,
Pomposo pasto
Do abominável.
-
Sopra milésimos tomamos fôlego,
Reluz o astro,
Luz-adorável.
-
Pralém da úlcera estomacal,
Das queimações,
Doída azia.
-
Desponta arte musicam dança,
Poemas brotam,
Revolesia.
-
Musicam dança poemas brotam,
Despontar-te,
Revolesia.
-
[Michel F.M.]
- Autores: Michel F.M. (Pseudónimo
- Visível: Todos os versos
- Publicado: 28 de outubro de 2026 05:22
- Limite: 10 estrofes
- Convidados: Amigos (usuários da sua lista de amigos podem participar)
- Comentário do autor sobre o poema: O poema "10 Mil Versos numa Porção de Existência" apresenta uma forte carga existencialista, construído a partir do contraste marcante entre a angústia da realidade biológica/social e o poder libertador da arte. Abaixo, divido a análise detalhada dos aspectos temáticos, estruturais e estilísticos da obra: 1. Temática e Evolução Narrativa - O poema se desenvolve em uma estrutura de tensão e alívio, dividida claramente em três momentos: • A Angústia Existencial (Estrofes 1 e 2): O poema abre com uma visão niilista e pessimista do mundo. O espaço humano é descrito como "horrível" e "detestável". O tempo é um agente de desgaste ("esperança escoa"), transformando a existência em um "pomposo pasto do abominável" — uma metáfora forte para o consumismo, a degradação ou a passividade humana diante do horror. • O Respiro Biológico (Estrofes 3 e 4): Há uma transição sutil. O "sopro" traz um alívio temporário, a luz do sol ("astro") é adorável, mas logo a realidade física se impõe. A quarta estrofe traz a crueza do corpo: a "úlcera estomacal", as "queimações" e a "doída azia". Esse trecho humaniza o sofrimento, mostrando que a dor existencial também é física e visceral. • A Redenção pela Arte (Estrofes 5 e 6): A virada poética acontece com a chegada da expressão artística ("arte, musicam, dança, poemas"). A arte surge como a cura para a "úlcera" e para o "mundo horrível". Ela brota como uma força revolucionária e curativa. 2. Recursos Estilísticos e Linguísticos - • Neologismo ("Revolesia"): A palavra que encerra o poema é uma criação poderosa. Soa como a fusão de Revolução + Poesia (ou Realeza/Maresia/Amasia). Sugere que o ato de fazer poesia e arte é, por si só, uma revolta contra a podridão do mundo. • Jogo de Palavras (Trocadilho): Na transição da 5ª para a 6ª estrofe, o eu lírico transforma "Desponta arte" em "Despontar-te" (no sentido de ferir, picar, ou de fazer-se notar/destacar). Isso dá ambiguidade ao texto, fundindo o surgimento da arte com a ação de tocar o indivíduo. • Eco e Repetição: A última estrofe reorganiza os versos da quinta. Essa repetição em eco (uma estrutura circular) funciona como um mantra ou um refrão, fixando a ideia de que a arte é o que move e encerra o ciclo da sobrevivência. 3. Estrutura e Ritmo - • Estrofes Curtas: A escolha de estrofes de três versos (tercetos) dá um ritmo pausado, quase como pílulas de pensamento ou o próprio "tomar fôlego" mencionado no texto. • Rimas Ideológicas: Na primeira metade, o poema usa rimas que reforçam o peso da existência (detestável, abominável, adorável). Na segunda metade, o ritmo muda para focar na musicalidade e na ruptura (azia, revolesia). Resumo do Significado - O título "10 Mil Versos numa Porção de Existência" contrasta a imensidão da criação mental (dez mil versos) com a brevidade e limitação da vida humana (uma porção de existência). O poema conclui que, embora o mundo seja hostil e o corpo adoeça, a arte é a única ferramenta capaz de metabolizar a dor e transformá-la em revolução interna.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2
- Em coleções: Zumbido Coletivo.
