INVENTÁRIO DAS COISAS MORTAS

joaquim cesario de mello

 

Na gaveta ainda os talheres

Que minha mãe guardava com zelo

Um relógio velho quebrado

Desdentado de ponteiros

Ou do tique-taque que mastiga o tempo

E um botão que não sei

De que camisa caiu

Que corpo abandonou

Ou a mão que o abotoou pela última vez

 

Tudo isso foi o que restou

Da herança que os mortos me legaram

Assim como no fundo daquela caixa

Há a chave da casa que nunca construí

E com ela passo as noites experimentando fechaduras

e talvez seja apenas na última madrugada que ela se abra

 

  • Autor: joaquim cesario de mello (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de outubro de 2026 07:18
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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