Na gaveta ainda os talheres
Que minha mãe guardava com zelo
Um relógio velho quebrado
Desdentado de ponteiros
Ou do tique-taque que mastiga o tempo
E um botão que não sei
De que camisa caiu
Que corpo abandonou
Ou a mão que o abotoou pela última vez
Tudo isso foi o que restou
Da herança que os mortos me legaram
Assim como no fundo daquela caixa
Há a chave da casa que nunca construí
E com ela passo as noites experimentando fechaduras
e talvez seja apenas na última madrugada que ela se abra