Sobre Fábula e Fé 

Michel F.M.

Acredite em mim, quando digo,
Que não acredito em quase nada
E não acredito em quase ninguém.

Eu não tenho religião,
Nada credito aos deuses,
Nenhum mérito ao onipotente.

Não creio em evangelhos,
Parábolas, conselhos, sermões, 
Depoimentos, escrituras, 
Sacramentos, santidades ou visões.

Mas reconheço milagres,
Quando os vejo.
E minha única crença
É a poesia.

Ela é a única explicação que especulo,
A única expectativa que tenho,
Única conclusão que espero.

Entre as lacunas incalculáveis,
Sei que ela, é a única coisa que resta,
Única substância, que sou.

______________

19/05/23
[Michel F.M. - Acumulador de Feitos Invisíveis - Trilogia Ensaio sobre a Distração - Vol. 1]

  • Autor: Michel F.M. (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 21 de outubro de 2026 05:29
  • Comentário do autor sobre o poema: O poema "Sobre Fábula e Fé" é uma profunda declaração de princípios que explora a transição do ceticismo religioso para a devoção estética, elegendo a poesia como a única força transcendental legítima. O eu lírico desconstrói as estruturas tradicionais de crença para reconstruir sua própria espiritualidade por meio da arte. Abaixo, apresento uma análise estruturada dos principais aspectos do poema: 1. A Dialética entre o Vazio e o Preenchimento - O poema é construído em um forte contraste (antítese) entre a rejeição absoluta da fé dogmática e a entrega total à experiência poética. • O Desapego (Estrofes 1 a 3): O autor utiliza uma linguagem negativa sistemática ("não acredito", "não tenho", "nada", "nenhum", "não creio"). Há uma recusa deliberada tanto de figuras divinas quanto dos rituais e textos que sustentam as religiões organizadas (evangelhos, sacramentos, escrituras). • A Epifania (Estrofe 4 em diante): Ocorre uma virada temática com a conjunção adversativa "Mas". Ao rejeitar os milagres divinos, o eu lírico valida os "milagres" cotidianos ou estéticos. A poesia assume o papel que antes pertencia à religião. 2. A Poesia como Religião Individual - Para o eu lírico, a poesia não é apenas um gênero literário ou um passatempo; ela é elevada ao status de crença, explicação e substância: • Explicação e Expectativa: Diante de um mundo inexplicável, a poesia é a ferramenta de especulação filosófica e a única esperança de sentido. • Existencialismo: Na última estrofe, o poema toca em um tom existencialista. "As lacunas incalculáveis" representam o vazio da existência, a dúvida e o caos do mundo. O que sobra desse vazio ("a única coisa que resta") e o que define a própria essência do ser ("única substância, que sou") é o fazer poético. 3. Aspectos Estruturais e Estilísticos - • Tom Confessional: O poema começa com um apelo direto ao leitor ("Acredite em mim, quando digo"), estabelecendo um pacto de intimidade e sinceridade. • Ritmo e Repetição: O uso da palavra "única" repetida cinco vezes nas três últimas estrofes funciona como um mantra. Essa repetição reforça a ideia de exclusividade e absolutismo: se antes o eu lírico não cria em nada, agora ele crê fanaticamente em uma só coisa. • Vocabulário Religioso Subvertido: Palavras como "fé", "crença", "milagres" e "sacramentos" são retiradas do contexto eclesiástico e ressignificadas dentro do universo da criação artística. Resumo da Mensagem - "Sobre Fábula e Fé" mostra que a descrença nos mitos tradicionais (as "fábulas") não significa a ausência de uma "fé". O poema defende que a sensibilidade artística e a capacidade de se emocionar com a palavra são as formas mais puras de transcendência humana. A arte cura o vazio deixado pela ausência dos deuses.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Queiroz Francisco
  • Em coleções: Acumulador de Feitos Invisíveis.


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.