LITURGIA PARA DIAS SEM SOL

Ayalah Verônica Berg

 

Falo comigo.
Minhas respostas me bastam.
Perguntar é uma forma educada de controlar.
 
Preciso de prazeres
que durem o tempo que eu determinar.
Quem se aproxima 
perde a direção  
e chama isso de desejo.
 
Agito-me.
O anjo está à minha órbita
sem saber que está.
 
À noite, o anjo severo
inclina-se sobre o leito.
Não é hábito:
é amor.
Sussurro: continua.
No escuro pronuncia meus nomes.
 
Minha vontade é pura
como uma lâmina cega.
O anjo treme.
Meu rosto pálido
é o eclipse que ele toca.
 
Nunca disse mal de mim.
Tenho amigos.
Eles fazem o serviço
com a competência dos desafetos.
 
Dizem que sou amada por ser má.
Não percebem:
quem me ama
é pior que eu.
Me amar é escolher o abismo
e chamá-lo de espelho.
Amo o que me obedece.
 
Decisões noturnas
perdem validade ao amanhecer.
O dia é um ritual
que absolve o proibido.
 
Fico com o perfume
de uma noite em queda.
O mundo continua girando.
Eu aproveito.
É generosidade.
 
No fim, a luz floresce
como uma saída discreta.
Nada me espera.
Eu também não.
E o vício de ser eu
veste-se de branco
e some.
 
 
Liturgia para Dias Sem Sol 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 20 de outubro de 2026 08:04
  • Comentário do autor sobre o poema: "Anjo cheio de alegria, conheceis a angústia, / A vergonha, os remorsos, os soluços, os tédios, / E os vagos terrores dessas noites funestas / Que comprimem o coração como um papel que se amassa? / Anjo cheio de alegria, conheceis a angústia?" –Charles Baudelaire
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 8
  • Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Queiroz Francisco, Morlock


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