Falo comigo.
Minhas respostas me bastam.
Perguntar é uma forma educada de controlar.
Preciso de prazeres
que durem o tempo que eu determinar.
Quem se aproxima
perde a direção
e chama isso de desejo.
Agito-me.
O anjo está à minha órbita
sem saber que está.
À noite, o anjo severo
inclina-se sobre o leito.
Não é hábito:
é amor.
Sussurro: continua.
No escuro pronuncia meus nomes.
Minha vontade é pura
como uma lâmina cega.
O anjo treme.
Meu rosto pálido
é o eclipse que ele toca.
Nunca disse mal de mim.
Tenho amigos.
Eles fazem o serviço
com a competência dos desafetos.
Dizem que sou amada por ser má.
Não percebem:
quem me ama
é pior que eu.
Me amar é escolher o abismo
e chamá-lo de espelho.
Amo o que me obedece.
Decisões noturnas
perdem validade ao amanhecer.
O dia é um ritual
que absolve o proibido.
Fico com o perfume
de uma noite em queda.
O mundo continua girando.
Eu aproveito.
É generosidade.
No fim, a luz floresce
como uma saída discreta.
Nada me espera.
Eu também não.
E o vício de ser eu
veste-se de branco
e some.
Liturgia para Dias Sem Sol
de Ayalah Verônica Berg
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Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de outubro de 2026 08:04
- Comentário do autor sobre o poema: "Anjo cheio de alegria, conheceis a angústia, / A vergonha, os remorsos, os soluços, os tédios, / E os vagos terrores dessas noites funestas / Que comprimem o coração como um papel que se amassa? / Anjo cheio de alegria, conheceis a angústia?" –Charles Baudelaire
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 8
- Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Queiroz Francisco, Morlock

Offline)
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