Ayalah VerĂ´nica Berg

LITURGIA PARA DIAS SEM SOL

 

Falo comigo.
Minhas respostas me bastam.
Perguntar é uma forma educada de controlar.
 
Preciso de prazeres
que durem o tempo que eu determinar.
Quem se aproxima 
perde a direção  
e chama isso de desejo.
 
Agito-me.
O anjo está à minha órbita
sem saber que está.
 
À noite, o anjo severo
inclina-se sobre o leito.
Não é hábito:
é amor.
Sussurro: continua.
No escuro pronuncia meus nomes.
 
Minha vontade é pura
como uma lâmina cega.
O anjo treme.
Meu rosto pálido
é o eclipse que ele toca.
 
Nunca disse mal de mim.
Tenho amigos.
Eles fazem o serviço
com a competência dos desafetos.
 
Dizem que sou amada por ser má.
Não percebem:
quem me ama
é pior que eu.
Me amar é escolher o abismo
e chamá-lo de espelho.
Amo o que me obedece.
 
Decisões noturnas
perdem validade ao amanhecer.
O dia é um ritual
que absolve o proibido.
 
Fico com o perfume
de uma noite em queda.
O mundo continua girando.
Eu aproveito.
É generosidade.
 
No fim, a luz floresce
como uma saída discreta.
Nada me espera.
Eu também não.
E o vício de ser eu
veste-se de branco
e some.
 
 
Liturgia para Dias Sem Sol 
 de Ayalah Verônica Berg