Há dias em que o que deveria ser abrigo
não passa de um ninho feito de espinhos.
E, ao me aproximar,
em vez de repouso,
encontro feridas
que florescem sob a minha pele.
Há dias em que prefiro desaparecer,
me esgotar nas horas,
entregar meu corpo ao cansaço do mundo,
a ter de regressar
ao lugar onde deveria repousar
a minha alma.
Você não sabe falar comigo
sem vestir a ironia de coroa
e a arrogância de armadura,
mas ama apontar a grosseria
das minhas devoluções.
Diga-me:
se você cessasse as flechas
que dispara pela boca,
se recolhesse as palavras
que atravessam meu peito,
será que eu ainda seria tão áspera?
Será que, sem tantos espinhos cravados,
eu voltaria a florescer em doçura?
Sim, há dias em que prefiro
me consumir aos poucos,
como uma vela que arde na escuridão,
na esperança de que a chama
me conduza a algum lugar bonito,
a alguma terra onde a primavera
não seja apenas uma promessa.
Prefiro gastar minhas forças na estrada,
mesmo sem saber onde ela termina,
a permanecer imóvel
num vale sombrio,
onde até os sonhos caminham curvados
e a esperança aprende a falar baixinho.
Porque é triste quando o ninho vira armadilha,
quando as paredes deixam de proteger
e o teto já não impede a tempestade.
E mais triste ainda
é descobrir que, às vezes,
as mãos que deveriam nos acolher
são as mesmas que alimentam
os espinhos do nosso caminho.
Então, eu me pergunto:
quantas pétalas preciso perder
até que alguém perceba os espinhos?
Quantas vezes preciso sangrar
para que compreendam
que nem toda flor que fere
nasceu querendo ferir?
Talvez eu ainda seja flor.
Talvez só esteja cansada
de tentar florescer
em solo feito de pedras.
E, se um dia eu partir,
não digam que fui feita de espinhos.
Lembrem-se de que até a rosa mais delicada
aprende a se defender
quando ninguém cuida do jardim.
Pois até a alma mais doce
se cansa de sangrar
no lugar onde deveria
florescer.
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Autor:
Bruna Ferrazzi (
Offline) - Publicado: 19 de outubro de 2026 22:10
- Categoria: Triste
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Ayalah Verônica Berg

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