Bruna Ferrazzi

Onde Florescem os Espinhos

Há dias em que o que deveria ser abrigo

não passa de um ninho feito de espinhos.

E, ao me aproximar,

em vez de repouso,

encontro feridas

que florescem sob a minha pele.

 

Há dias em que prefiro desaparecer,

me esgotar nas horas,

entregar meu corpo ao cansaço do mundo,

a ter de regressar

ao lugar onde deveria repousar

a minha alma.

 

Você não sabe falar comigo

sem vestir a ironia de coroa

e a arrogância de armadura,

mas ama apontar a grosseria

das minhas devoluções.

 

Diga-me:

se você cessasse as flechas

que dispara pela boca,

se recolhesse as palavras

que atravessam meu peito,

será que eu ainda seria tão áspera?

Será que, sem tantos espinhos cravados,

eu voltaria a florescer em doçura?

 

Sim, há dias em que prefiro

me consumir aos poucos,

como uma vela que arde na escuridão,

na esperança de que a chama

me conduza a algum lugar bonito,

a alguma terra onde a primavera

não seja apenas uma promessa.

 

Prefiro gastar minhas forças na estrada,

mesmo sem saber onde ela termina,

a permanecer imóvel

num vale sombrio,

onde até os sonhos caminham curvados

e a esperança aprende a falar baixinho.

 

Porque é triste quando o ninho vira armadilha,

quando as paredes deixam de proteger

e o teto já não impede a tempestade.

 

E mais triste ainda

é descobrir que, às vezes,

as mãos que deveriam nos acolher

são as mesmas que alimentam

os espinhos do nosso caminho.

 

Então, eu me pergunto:

quantas pétalas preciso perder

até que alguém perceba os espinhos?

Quantas vezes preciso sangrar

para que compreendam

que nem toda flor que fere

nasceu querendo ferir?

 

Talvez eu ainda seja flor.

Talvez só esteja cansada

de tentar florescer

em solo feito de pedras.

 

E, se um dia eu partir,

não digam que fui feita de espinhos.

Lembrem-se de que até a rosa mais delicada

aprende a se defender

quando ninguém cuida do jardim.

 

Pois até a alma mais doce

se cansa de sangrar

no lugar onde deveria

florescer.