Ao Rei tudo, Menos a Honra
Artigo:
Claudio Gia
Macau, RN, 16 de setembro de 2026
Há frases que atravessam décadas e ainda ferem. Djalma Aranha Marinho, avô paterno do senador Rogério Marinho, pronunciou uma delas em dezembro de 1968, quando presidia a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e o regime militar exigia a cassação de um parlamentar de oposição. Mesmo sendo da ARENA, o partido do governo, ele votou contra. E disse, adaptando Calderón de la Barca: “Ao rei tudo, menos a honra.”
Um dia depois, o AI-5 fechava o Congresso.
Hoje o neto, senador pelo PL do Rio Grande do Norte, apresenta emenda à PEC da Segurança Pública para reduzir a maioridade penal a 16 anos e, em crimes graves, permitir responsabilização desde os 14. Argumenta com números, com facções, com a impunidade que alicia adolescentes. O debate é técnico, firme, regimental.
Não sou favorável ao crime. Nunca fui. A dor das vítimas é real, o medo das famílias é legítimo, e a violência que destrói comunidades pobres não pode ser romantizada. Mas também sou contra polícias que matam jovens com mais de 40 tiros. Sou contra o feminicídio, principalmente quando vem de quem deveria proteger. Porque a justiça que só enxerga o menino pobre armado e fecha os olhos para o excesso de força, para a execução sumária e para a violência de gênero dentro das próprias instituições, não é justiça: é seletividade.
A pergunta que a história do próprio clã faz não é apenas técnica. É humana. E é política.
Se um filho ou neto de Rogério Marinho, ou de seu pai Valério, ou de seu tio Márcio — homens formados na tradição liberal-conservadora potiguar — cometesse, aos 14 ou 15 anos, um crime hediondo, a família pediria que a criança fosse recolhida a um presídio comum? Ou invocaria, como o avô invocou, a honra da proteção, da segunda chance, do tempo de formação?
Se, no passado, um adolescente da árvore Barbalho-Simonetti, esse ramo materno que hoje ocupa governos e ministérios, tivesse cruzado a linha, os mesmos homens que administram o poder no Norte do país teriam aceitado vê-lo engolido pelo sistema penitenciário adulto?
O Brasil suportaria? Cadê os presídios para essas crianças? Os antigos modelos da Febem produziram recuperação ou apenas cicatrizes e reincidência? Colocar um menino de 14 anos no meio de facções adultas não é, em muitos casos, entregá-lo a uma escola mais eficiente de crime do que qualquer aula que ele tenha abandonado?
E se o próprio Rogério Marinho, aos 14 anos, tivesse praticado um ato irreparável e tivesse sido enviado àquela mesma Febem que agora se considera branda demais? Estaria, décadas depois, sentado na CCJ defendendo que outros meninos de 14 anos percam o que restava de infância e de possibilidade de retorno?
Mas há perguntas ainda mais profundas, que a pressa do medo costuma silenciar.
Será que essas crianças e adolescentes estariam hoje à margem, se tivessem tido acesso a creches de qualidade, a escolas justas, a formação educacional e profissional digna desde a primeira infância?
No lugar de construir mais celas, não seria melhor criar escolas técnicas, centros de formação profissional e universidades acessíveis, onde o futuro se construísse com ferramentas e não com grades?
Será que os valores das emendas dos deputados e senadores — esses mesmos recursos que se discutem com tanto ardor para endurecer a lei — não seriam melhor investidos no combate real ao crime organizado, às facções, à “machadinha” que alicia, arma e descarta a juventude pobre? Não seria mais eficaz atacar a raiz que produz o menino armado do que apenas aumentar a idade em que ele pode ser trancado?
Não se trata de negar a dor das vítimas. Não se trata de romantizar o crime. Trata-se de recusar a falsa escolha entre impunidade e brutalidade. Trata-se de lembrar que prevenção não é slogan: é creche, é escola, é formação, é oportunidade antes que a facção chegue primeiro. E que uma sociedade que aceita 40 tiros em um corpo jovem, ou o feminicídio praticado por quem carrega a farda, perde o direito de falar em segurança com autoridade moral.
A direita potiguar de Djalma Marinho soube, em 1968, dizer não ao rei quando a honra do Legislativo estava em jogo. A esquerda que hoje se alia aos Barbalho no Norte também já soube, em outras horas, falar de direitos humanos e de ressocialização. Entre esses dois polos familiares — a direita tradicional e o centrão pragmático — o senador Rogério Marinho escolheu a linha mais dura.
A pergunta que fica não é de partido. É de coerência e de futuro.
Quando a criança que erra for a nossa — e não a do outro —, ainda defendemos a mesma medida? Quando o jovem morto a tiros for o nosso, ou a mulher assassinada for a nossa, ainda calaremos diante do excesso? Ou, como o avô, descobriremos que há coisas que não se entregam nem ao rei, nem ao medo, nem à pressa de parecer forte? Que a verdadeira força está em construir escolas onde hoje se planejam celas, e em exigir que a polícia proteja, e não execute.
Ao rei tudo, menos a honra.
E menos, também, a infância de quem ainda pode ser outra coisa — e a vida de quem nunca deveria ter sido alvo de 40 tiros.
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Autor:
Claudio Gia (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 16 de outubro de 2026 18:31
- Categoria: Não classificado
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