Fui tantas versões para sobreviver,
que já não sei qual delas devo ser.
Vesti tantos rostos para não desabar,
que esqueci qual era o meu ao chorar.
Fui calmaria quando queria gritar,
fui fortaleza quando pensei que iria quebrar.
Fui tudo aquilo que esperavam de mim,
e, a cada mudança, perdi algo no fim.
Aprendi a sorrir sem sentir alegria,
a esconder tempestades em plena calmaria.
Fiz da minha dor uma forma de existir,
e me tornei tantas coisas que esqueci de sentir.
Há um estranho no espelho usando o meu rosto,
carregando meus medos, meus erros, meu desgosto.
Conhece minhas cicatrizes, sabe onde doeu,
mas, se eu perguntar quem sou, não dirá que sou eu.
E eu tenho procurado, em cada fragmento,
aquele que existia antes de tanto tormento.
Antes de aprender que sentir era fraqueza,
antes de confundir sobreviver com ter certeza.
Quero arrancar de mim o que não me pertence,
mas temo que, por baixo, nada mais me sustente.
E se o meu verdadeiro eu, perdido em algum lugar,
for apenas mais uma versão que precise abandonar?
Ainda assim, eu procuro, mesmo sem direção,
os restos de quem fui, entre os cacos no chão.
Já não quero ser quem o mundo escolheu,
quero saber quem existia antes de tudo que aconteceu.
E se eu tiver que me perder para me reconhecer,
que eu perca essas máscaras, mas não o meu querer.
Que eu encare o vazio sem fugir do que é meu,
até olhar no espelho e não temer quem sou eu.
Porque eu fui tantos, que esqueci de mim.
Fui começo, fui ruína, fui um falso fim.
Mas, enquanto houver em mim algo que não morreu,
uma voz sob os escombros sussurrando que sou eu...
Talvez eu ainda não saiba quem sou.
Talvez nem me lembre de quem um dia fui.
Mas, por trás de tudo aquilo que a vida moldou,
por trás de todas as versões...
ainda sou eu.
-
Autor:
Alex Azambuja (
Offline) - Publicado: 16 de outubro de 2026 15:27
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Nelson de Medeiros

Offline)
Comentários1
Ave, poeta! Excente texto que está perfeito para ser musicado. 1 ab
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.