Que reme
Enquanto lhe sobrarem forças,
Que rime quando não houver escolha.
- Faremos arte até o fim.
-
Aponte para o horizonte
E caminhe na direção daquele
Que se afasta a cada passo.
-
Jogue os dados na fogueira,
Pois a sorte nós fazemos.
Aos seres azarados não resta
-
Alternativa, senão cuspir
No prato da fortuna.
-
Que os maltrapilhos
E escalavrados façam do
Lamaçal teu templo de glórias.
-
E nos instantes derradeiros,
Quando tudo mirar pro
Inescapável recomeço,
-
Lembre-se de esquecer
O que não vale ser lembrado
E não se esqueça do primordial:
- Faremos da arte o nosso fim.
-
[Michel F.M.]
Todo erro traz consigo a desculpa
E nem toda desculpa carrega um erro.
E nas paredes arranhadas do arrependimento
Doces lembranças irradiadas pela saudade.
Pois o bardo é rei
O bardo é maltrapilho
O bardo faz sua lei
Sua arte, seu estribilho
Não estranhes os remendos
Que vês nas minhas vestes
Andarilho, vi tremendos
Pecados, bem mais de sete
Cantemos aos loucos, aos bardos
Cantemos aos vagabundos
O vento sopra o cardo
As sementes ganham o mundo
PV
Maltrapilho do Céu
Roto a coisa tá preta pro teu lado,
Não parece que tá lá muito boa,
Mas tu sempre de bom humor.
Imagino tu esmolambando pelintra,
Singelo batendo à porta do céu:
— Cença, seu dotô!
E Porteiro bonachão no céu:
- Que que é isso, mulambento.
- Aqui não é o teu lugar de arte!
Tu precisa pedir um banho e sair...
Dessa tua farroupilha, mal- trajado.
E o andrajoso sorriu, depois desceu.
- Dodge Leal
Andando pelas ruas,
arrastando seus carros
às vezes dentro de condução
pedindo esmolas pra sobreviver
parando carros nos faróis
vivendo em tendas embaixo
de viadutos
tudo isso pra sobreviver
São humanos de coração puro
pagando seus preços pelos
erros da estrada
por caminhos obscuros que
escolheram percorrer
Empurrando a pedra todo dia pela manhã
Sem saber o porquê de me esforçar
Condenado desde a mordida maçã
Obrigado a prosseguir e caminhar
Trabalho sem sentido, vivendo a empurrar
Olhando, desgarrado, a figueira a balançar
Cada dia um osso novo
Cada noite a casca do ovo
Sem jamais chocar
La se vai a alma do Povo
Que labora a desbotar
- Marcelo Miranda Velten
- Autores: Michel F.M. (Pseudónimo, Guacimar Vieira de Mello Noos, Pedro Viegas, Jorge E. Leal, Julian Lael, Dodge Leal, Rosangela Rodrigues de Oliveira, Marcelo Miranda Velten
- Visível: Todos os versos
- Publicado: 9 de outubro de 2026 11:59
- Limite: 9 estrofes
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- Comentário do autor sobre o poema: O poema "Sinfonia dos Maltrapilhos" é uma obra potente que transita entre o existencialismo, a resiliência e a função libertadora da arte. Ele funciona como um manifesto dos marginalizados (os "maltrapilhos" e "escalavrados"), transformando a dor e a escassez em combustível para a criação e a transcendência. Abaixo, apresento uma análise detalhada dividida pelos principais eixos temáticos do poema: 1. A Arte como Sobrevivência e Destino (Metalinguagem) - A arte aparece no poema não como um adorno burguês, mas como uma ferramenta de resistência visceral. • "Que reme [...] Que rime": O jogo fonético entre "reme" (o esforço físico, o trabalho braçal da sobrevivência) e "rime" (o esforço intelectual e artístico) mostra que, para o eu lírico, criar é tão vital quanto sobreviver. • O duplo sentido de "Fim": Na primeira estrofe, diz-se "Faremos arte até o fim" (limite temporal, até a morte). Na última estrofe, há uma sutil e crucial mudança: "Faremos da arte o nosso fim" (propósito, objetivo final). A arte deixa de ser apenas o meio para se tornar a própria razão de existir. 2. A Utopia e o Caminhar (A Linha do Horizonte) - A segunda estrofe dialoga diretamente com o famoso conceito de utopia de Eduardo Galeano: "Aponte para o horizonte / E caminhe na direção daquele / Que se afasta a cada passo." O horizonte móvel representa a busca incessante. O valor não está em chegar a um destino idealizado, mas no ato de caminhar. Para os despossuídos, o movimento e a recusa em estagnar são as únicas formas de manter a dignidade. 3. A Rejeição ao Destino e à Sorte - Na terceira e quarta estrofes, o poema assume um tom de revolta ativa contra o determinismo social e o misticismo: • "Jogue os dados na fogueira": Queimar os dados significa rejeitar o azar e o fatalismo. • "Cuspir no prato da fortuna": É uma virada herética e orgulhosa. Se a sociedade ou o destino (a fortuna) não alimentam esses sujeitos, eles rejeitam as migalhas com desprezo, assumindo o controle da própria narrativa ("Pois a sorte nós fazemos"). 4. A Sacralização do Profano - A quinta estrofe traz uma das imagens mais fortes do texto: "Que os maltrapilhos / E escalavrados façam do / Lamaçal teu templo de glórias." O "lamaçal" (a miséria, a margem, a sujeira) é ressignificado. Em vez de um lugar de vergonha, torna-se um "templo de glórias". Há uma santificação da vivência marginal pela ótica da resistência; a glória deles não vem do ouro, mas da capacidade de criar beleza a partir da lama. 5. O Ciclo do Recomeço e a Memória Seletiva - As duas últimas estrofes preparam o leitor para o encerramento da jornada: • "Inescapável recomeço": O fim da vida ou de um ciclo não é visto como morte definitiva, mas como um eterno retorno. • "Lembre-se de esquecer": O eu lírico propõe uma sabedoria prática de sobrevivência: apagar o sofrimento estéril, os traumas que paralisam ("o que não vale ser lembrado"), e guardar apenas a essência e o propósito vital (o "primordial"), que é a própria criação artística. Estrutura e Ritmo - O título "Sinfonia" contrasta ironicamente com a crueza dos "Maltrapilhos". Enquanto uma sinfonia clássica evoca erudição e ordem, esta sinfonia é feita de suor, rimas forçadas pela necessidade, dados queimados e passos no lamaçal. Os versos livres e curtos dão um ritmo de marcha ao poema — uma caminhada compassada, insistente e orgulhosa.
- Categoria: Reflexão
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- Em coleções: Zumbido Coletivo.
