A febre

Kauane de Moraes

Teu vulto cruza a casa e ainda me ronda.
No escuro, cada tábua devolve sinais.
Minha razão, tão sóbria, perde a onda,
meu corpo, que te expulsa, pede mais.

Não te perdoo. Beijo a cicatriz
que a tua ausência abriu sem me tocar.
Há um incêndio ajoelhado na raiz
de tudo o que não ouso confessar.

Se voltas, não prometo paz nem abrigo.
Terás meu peito em febre, em contramão.
Ainda te desejo e me contradigo.
A boca diz adeus, a pele não.



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