A vidraça de Alice

Lilyth

A vidraça de Alice

 

Vamos lá, Alice.

Vamos lá, Alice.

Saia de teu país de conforto,

tua vida está passando

e tu estás ficando e te confortando.

 

Vamos lá, Alice.

Vamos lá, Alice.

Porque não consegues

cumprir nada do que dizes?

Por lá promessas,

Por cá incertezas.

 

Vamos lá, Alice.

Vamos lá, Alice.

Você é tão pobre, tão supérflua

quanto a imagem dos fariseus

que te proferem asneiras.

 

Vamos lá, Alice.

Vamos lá, Alice.

Posso te gritar,

mas não estás a escutar.

 

O que há?

Vamos lá, já não posso mais negar.

A quem quero enganar?

É de mim que estou a falar.

 

Olho para o nome e vejo

o reflexo do meu medo.

Alice, Alic, Ali, Al, A, C, Ce, Cel, Celi, Celia.

Era eu, sempre fui eu.

O nome era o meu,

o temor era meu,

mas continuava a me cegar.

 

Vamos lá, Celia.

Vamos lá, Celia.

Não era de Alice que estavas a falar.

 

  • Autor: Lilyth (Offline Offline)
  • Publicado: 6 de outubro de 2026 11:19
  • Comentário do autor sobre o poema: Poesia lírica confessional-psicológica, de caráter introspectivo, marcada pela teoria da projeção e pela reflexão sobre autojulgamento e espelhamento. Construída em cima de uma linguagem simbólica, reiterativa e metamórfica, com uso intencional da metáfora da vidraça como espelho e da decomposição nominal como recurso de revelação identitária. Aqui abaixo vão as considerações e explicações das expressões utilizadas no poema: I. Alice não é um personagem em si, mas uma representação simbólica de projeção. É a definição que o poema dá para aquilo que os seres humanos fazem: projetar seus próprios medos e defeitos. Já Celia é a representação dos indivíduos que julgam os outros, mas não reconhecem a si mesmos. II. O título nasce da representação da vidraça como reflexo das críticas de si mesmo. A Celia achava que estava olhando para Alice, mas estava olhando através de Alice seu próprio reflexo. III. O poema é repleto de metáforas que fazem referência a comportamentos, reflexões sociais e psicológicas. Superficialmente dá a entender que o poema faz crítica aos maus costumes de Alice, mas o conteúdo das críticas não é o foco, é só o pretexto. IV. A expressão: “saia de teu país de conforto, tua vida está passando e tu estas ficando e confortando”, estabelece uma analogia com a preferência de Alice a costumes, segurança e hábitos conhecidos à transformação, enquanto o tempo continua avançando. V. A repetição de “Vamos lá, Alice.” representa não apenas um chamado insistente, mas a tentativa contínua do eu lírico de conduzir e cobrar Alice por aquilo que considera seus erros e sua incapacidade de mudar. Retrospectivamente, porém, essa cobrança revela-se também uma forma inconsciente de autocobrança. VI. Na estrofe “Posso lhe gritar, mas não estás a escutar”, não se trata de um grito literal. Mas sim uma metáfora que estabelece analogia com a projeção: embora o eu lírico aparente dirigir suas críticas a Alice, sua fala não é verdadeiramente ouvida por ela porque, na realidade, ele está falando de si mesmo sem ainda reconhecer isso. Referência direta à psicanálise, que rege a reflexão de que devemos ter cuidado ao criticar os outros, pois podemos estar falando de nós mesmos em voz alta. VII. A decomposição e reconstrução do nome “Alice, Alic, Ali, Al, A, C, Ce, Celi, Celia”, representa o processo de reconhecimento de si. Ao perceber que tudo aquilo que atribuía e criticava em Alice também pertencia a si, rompe a separação entre “eu” e “outro”, reconhecendo a própria projeção. VIII. Por fim, Celia, a representação dos indivíduos julgadores, volta a crítica para dentro, ao reconhecer que Alice era o reflexo de sua própria alma.
  • Categoria: Reflexão
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