À margem

Kauane de Moraes

Escrevi-te à hora em que a casa adormecia,
quando o silêncio dava corda à solidão.
A frase começava, e logo se perdia
entre o impulso e a cautela da expressão.

Quis dizer: fica. Mas a voz, tão orgulhosa,
cobriu de compostura o incêndio da vontade.
Deixei no papel uma palavra cuidadosa,
por baixo dela, inteira, ardia a verdade.

Se eu te amo? Há perguntas que desatam
o nó que a boca fez para não se trair.
Teu nome e o meu, quando em silêncio se tocam,
fazem da ausência um lugar difícil de fugir.

Guardei a carta. Não por falta de coragem,
há sentimentos que se entregam sem partir.

Mas há um amor que a carta não contém:
lacrado no papel, rompe-me a pele.
Se não te alcança, que me alcance além,
no fogo que me apaga e me repele.

  • Autor: Kauane de Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 5 de outubro de 2026 11:22
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 3
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