Escrevi-te à hora em que a casa adormecia,
quando o silêncio dava corda à solidão.
A frase começava, e logo se perdia
entre o impulso e a cautela da expressão.
Quis dizer: fica. Mas a voz, tão orgulhosa,
cobriu de compostura o incêndio da vontade.
Deixei no papel uma palavra cuidadosa,
por baixo dela, inteira, ardia a verdade.
Se eu te amo? Há perguntas que desatam
o nó que a boca fez para não se trair.
Teu nome e o meu, quando em silêncio se tocam,
fazem da ausência um lugar difícil de fugir.
Guardei a carta. Não por falta de coragem,
há sentimentos que se entregam sem partir.
Mas há um amor que a carta não contém:
lacrado no papel, rompe-me a pele.
Se não te alcança, que me alcance além,
no fogo que me apaga e me repele.