O Espião

Ebelac

Ele havia chegado com o nome virtuoso aos lábios

coisa rara naquela viagem

e a cidade o reconheceu

antes que ele reconhecesse a cidade.

 

Assim funciona o lugar:

não resiste ao que chega.

Absorve.

E este não o percebe.

 

A virtude é uma faca fina

no bolso de quem não aprendeu ainda

que aqui as facas enferrujam por dentro

enquanto o cabo brilha.

 

Ele sabia o que viera fazer.

Ou pensava que sabia,

que é o mesmo que saber,

até deixar de ser.

 

As leis entraram pelos poros

como névoa fria de madrugada úmida:

primeiro, o cansaço que parece prudência;

depois, a dúvida que parece sabedoria.

 

Por fim, o silêncio que parece paz:

a mais límpida das mentiras,

porque tem a textura exata

do sucesso genuíno.

 

O espião aprendia a língua

sem perceber que a língua

o reescrevia como um livro,

quando pensava ter encontrado o destino.

  • Autor: Ebelac (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de outubro de 2026 01:43
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
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