Abraçar um cavalo açoitado
E pedir-lhe perdão
Pela humanidade,
É o único ato de sanidade,
Num mundo tomado
Pela loucura.
Rasguei meus joelhos na pedra e não peço perdão pela queda,
trago no meu peito o sentido exato de tudo o que fui,
que sangre a fratura, que o mundo me quebre ou me ceda,
eu cuspo no medo e abraço esse fogo que em mim se conclui.
não amaldiçoo a dor, nem fujo do que me inflama,
beijo este destino inteiro, feroz e belo porque existe.
- Ana Gonçalves
Amar a vida como ela se apresenta,
com seus caminhos, encontros e partidas;
aceitar cada curva que o destino inventa
e transformar seus dias em novas vidas.
Amor fati: dizer “sim” ao que acontece,
sem fugir do passado ou temer o amanhã;
pois quem abraça a própria história reconhece
que até os tropeços fazem parte da caminhada.
(Rogério)
Resignar-se que a partida
Faz parte da jornada
Não torna a vida menos dolorida
Assim como saber que este corpo que cuido tanto, um dia virará comida
Não trás ao agora apatia
Não somos donos do destino
Amor fati é um amor sobre algo que não controlamos
Serve de norte para o que desejamos
É perigoso alimentar só o amor fati é esquecer o carpe diem
A mente fica presa nesta gangorra oscilando entre presente, passado e futuro
Sobre isso só nos resta tentar não ficar parado em cima do muro
E beber um capuccino
O chicote que corta a carne e o vento
É o mesmo que dita o compasso dos dias.
Corremos com pressa, fingindo o sustento,
Cegos na noite de nossas agonias.
Mas há um instante em que o tempo se cala,
Diante do lombo ferido e curvado,
Onde a brutalidade humana se instala
Cercado por homens de ferro e de gelo,
Que marcham rindo rumo à sepultura,
Romper a distância, tocar seu pelo,
É o único nexo em meio à loucura.
Lançar-me ao pescoço do que chora,
Sentir o calor de sua alma esquecida,
Pedir-lhe perdão pelo mundo lá fora,
Pela vergonha da raça vencida.
Vão dizer que é demência, que o juízo ruiu,
Que chorar pelo manso é perder a razão.
Mas louco é o homem que tudo assistiu,
E guardou o seu pranto dentro do caixão.
Se a Terra se perde em sua marcha de dor,
E o sangue inocente não causa piedade,
Gritar desarmado em nome do amor
É,enfim,nosso ato de insanidade.
MARE PINET LAEL
O amor deveras parece comprado,
Junto ao mais belo e forte desatino
Que alimenta o jovem moço amado;
Império em que deriva o meu destino.
Nobre essência de uma sutil tríade,
Relíquia potencial da nossa mente,
Da lenda que se faz neurótica lide,
Onde se nasce e floresce o valente.
Pela paixão se segue sem despedida,
Nesse ora feliz e aconchegante ninho,
Para colher os doces frutos dá-me tida.
Do amor insensato ao longo do caminho,
Nas idas e vindas pela trilha da vida,
Vinga essa paz de caminhar sozinho.
- Jorge E. Leal
Hoje me sinto o cavalo ferido
Não sei o motivo
Mas assim que me sinto.
Talvez os açoites
Foram criados por mim
Por ouvir desde criança
Como tudo deve seguir
Sem aceitar esse destino
Sempre lutei em minha mente
Para ser diferente
E hoje percebi
Que pouco eu senti
O amor que conheço
É apenas o abstrato
E o incondicional
Que sinto no mundo espíritual
Não o senti na pele
Como dizem por aí
Talvez essa falta
É o que sempre senti
Mas agora, aceito
Amor Fati viver
Me entregarei ao destino
Que se alinhar ao meu ser.
JÀ ACEITEI O MEU DESTINO
ACEITEI TANTO QUE ATÉ PEDI ELE EM CASAMENTO
PARA ACABAR COM O MEU TORMENTO
COMPUS ATÈ UM HINO
QUE SERÁ TOCADO NA LUA DE MEL
NOSSO RELACIONAMENTO SERÀ PURA DOR
E COM UM PINCEL
RETRATAREI NOSSO CRUEL AMOR
Hoje sinto-me o cavalo ferido
Pelo que fiz fiquei iludido.
A loucura me consome com um zumbido
O homem trata a vida como um doído
Doído ruído que assola os ouvidos
A matança apaga tua espécie
E as outras acabam a tiros
O que resta ao sádico
É se desculpar ao animal ferido
No mundo de loucos em que eu vivo
-Olho Grego Poeta
O que me causa grande dor
Não há de me infligir pavor
Se hoje sinto é porque vivo
E hei de estar mesmo num declivo
Pus-me em frente nessa guerra
Teço em vida um espaço na Terra
Sem espaço pra dois mundos
Sou o que vês, contando os segundos
Meus impasses constroem a mim
Nesse espaço confidente, sou, outrossim
Creio ser mais do que a vida me permite ser.
Sou invencível ao tempo ou até mesmo à morte.
Surfo em meus dias sem analisar o mar.
E, em algumas noites, quando no céu não brilham estrelas,
dou-me conta de que a vida é uma ilusão,
de que não sou nada,
de que o que habita em harmonia na natureza é irracional e puro,
e de que eu, sendo humano, é que sou uma besta.
Destinado a ser
É o que é para ser
Independente de quem seja o ser
Vale estar inserido(a)
Amor fati
Amor por mim e por ti
Amor que não depende de ninguém
Que é liberdade pura
E em alguns casos
Libertinagem atura
Porém com alguma lisura
Devidamente desprovido de censura
Fatídico para algumas mentes
A quem o "correto" atormente
Prendendo algo que tem asas
E precisa vôo para ser real
Ilegal ser podado o amor
Se tratando de intimidade
Restrito a quem estiver disposto
A degustar desse vinho o mosto
E sentir
E curtir
E se permitir
Incondicionalmente a
Amar
Com inteireza do amor fati
Amor Fati é isso: amar até o que veio para te quebrar, porque foi o que te forjou.
Amor Fati: não é aceitar o destino, é beijar a ferida que ele deixou.
M de Manzoli
-
transcorria
todos os seus dias
em alerta,
constante estado
de vigília.
-
entendia tanto de história
quanto geografia, mas versava
com fluência entre filósofos,
sociólogos e antropologia.
-
tinha um coração enorme
e uma mão excelente
pra poesia.
-
ela amava mais os animais
que as pessoas.
ninguém poderia
culpá-la por isso.
-
e depois
de tudo que leu,
viu e viveu,
você concordaria.
-
[Michel F.M.]
- Autores: Michel F.M. (Pseudónimo, Ana Gonçalves, Rogério, KByte, Mara, Jorge E. Leal, Julian Lael, Dodge Leal, Samara A. Ferreira, credence, Olho Grego Poeta, Bammacher, Guacimar Vieira de Mello Noos, Lucita, Nkifuani
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- Finalizado: 2 de outubro de 2026 06:02
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- Comentário do autor sobre o poema: O poema "Amor Fati" apresenta uma reflexão profunda e melancólica sobre a empatia, a culpa coletiva e a inversão dos conceitos de sanidade e loucura. O título faz referência direta ao conceito filosófico de Amor Fati (o "amor ao destino"), popularizado por Friedrich Nietzsche, que propõe a aceitação plena da vida e do destino exatamente como eles são. Abaixo, apresento uma análise detalhada da estrutura e do significado dos versos: 1. A Alusão Histórico-Filosófica - O cerne do poema reconta visualmente um dos episódios mais famosos da história da filosofia: o colapso de Friedrich Nietzsche em Turim, em 1889. Ao presenciar um cocheiro espancando cruelmente um cavalo, Nietzsche correu até o animal, jogou-se ao seu pescoço para protegê-lo e rompeu em prantos. Esse evento marcou o início definitivo de sua loucura clínica. O poema resgata esse gesto não como um surto, mas como uma epifania ética. 2. Análise dos Versos e Temáticas • "Abraçar um cavalo açoitado / E pedir-lhe perdão / Pela humanidade" O ato de abraçar o cavalo simboliza uma empatia radical e imediata com o sofrimento do outro (neste caso, o mundo naturalizado da exploração animal). O "pedido de perdão" evoca uma responsabilidade existencial e coletiva: o eu lírico assume a culpa pelos erros de toda a sua espécie ("pela humanidade"), reconhecendo a crueldade inerente às estruturas humanas. • "É o único ato de sanidade, / Num mundo tomado / Pela loucura." Aqui ocorre uma poderosa inversão de conceitos. Para a sociedade utilitarista e fria, o ato de chorar por um cavalo e pedir-lhe desculpas é visto como pura demência (como foi julgado o colapso de Nietzsche). No entanto, o poema defende o oposto: a verdadeira "loucura" é a apatia generalizada do mundo diante da dor. Sentir a dor do outro e rebelar-se contra a violência, mesmo que de forma simbólica ou impotente, torna-se o único gesto genuinamente lúcido e "são" que resta. 3. A Relação com o Título (Amor Fati) - A escolha do título gera uma ironia trágica. Enquanto o Amor Fati nietzschiano prega o abraço ao destino e à realidade com todas as suas dores, o gesto lírico do poema é uma reação de dor insuportável contra o destino cruel imposto ao animal. É o limite onde o amor à existência esbarra na intolerância ao sofrimento injusto, transformando o "abraço ao destino" no abraço físico a uma criatura injustiçada.
- Categoria: Reflexão
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- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Samara A. Ferreira
- Em coleções: Zumbido Coletivo.

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