QUANDO OS BONS SE CALAM

Josi Moreira

 

Nunca entendi
como alguém pode dizer-se bom
e, ainda assim, desejar o mal,
alimentar a crueldade,
ferir em silêncio
e assistir à dor
como quem nada tem a ver com ela.

Até que encontrei Hannah Arendt
e a sua inquietante
banalidade do mal.

Então compreendi
que o mal nem sempre chega gritando,
vestido de monstros,
com o rosto daquilo que tememos.

Às vezes,
ele chega de mansinho,
sentado entre os bons,
vestido de normalidade,
protegido pelo silêncio
de quem poderia dizer:
“Isso não está certo.”

O mal também cresce
quando ninguém o interrompe.

Cresce quando os olhos desviam,
quando a consciência negocia,
quando a covardia se disfarça de prudência,
quando o medo pede silêncio
e o silêncio passa a ser chamado de paz.

E então penso em Cristo.

Aquele que não escolheu o silêncio
diante da injustiça.

Aquele que tocou os intocáveis,
acolheu os rejeitados,
enfrentou os poderosos,
defendeu a verdade
e pagou o preço
por não transformar a fé
em mera conveniência.

Por isso me pergunto:

Que espécie de cristianismo é esse
que conhece a história de Jesus,
carrega Seu nome nos lábios,
mas se cala
quando sua fé é atacada,
quando sua Igreja é desrespeitada,
quando seus símbolos são profanados,
quando aquilo que considera sagrado
é tratado como motivo de escárnio?

Não falo de vingança.

Cristo nunca ensinou vingança.

Falo de coragem.

Porque defender a fé
não é odiar quem pensa diferente.

Defender o sagrado
não é perseguir o outro.

E levantar a voz contra a injustiça
não significa abandonar o amor.

Há um abismo
entre amar o inimigo
e ser indiferente ao mal.

Jesus ensinou o primeiro.
Nunca ensinou o segundo.

Talvez esse seja
um dos grandes perigos do nosso tempo:

não o mal que se apresenta como mal,
mas o mal que encontra
pessoas boas demais para combatê-lo.

Pessoas que veem,
mas não querem se envolver.

Que sabem,
mas preferem não falar.

Que discordam,
mas permanecem caladas
para não perder amizades,
status, conforto
ou comodidade.

E assim, pouco a pouco,
o absurdo se torna comum,
a crueldade se torna rotina,
a ofensa vira entretenimento
e a injustiça aprende
a morar dentro da normalidade.

Foi então que entendi:

nem todo silêncio é paz.

Às vezes,
o silêncio é apenas
o lugar onde o medo se esconde.

E talvez a pergunta mais difícil
não seja:

“Por que os maus fazem o mal?”

Mas:

“Por que os bons, vendo o mal,
decidem permanecer calados?”

Porque quando a injustiça bate à porta,
a neutralidade nem sempre é neutralidade.

Às vezes,
é apenas o conforto
de não querer pagar
o preço da verdade.

E eu prefiro lembrar de Cristo
não como aquele que se calou
para preservar a própria imagem,
mas como aquele que,
mesmo sabendo o preço,
permaneceu de pé.

Porque há momentos
em que falar é necessário.

Há momentos
em que defender é necessário.

Há momentos
em que permanecer em silêncio
também é uma escolha.

E quando chegar esse momento,
que Deus me livre
de ser tão “bom”
a ponto de não ter coragem
de enfrentar o mal.

Que me dê amor
sem covardia.

Misericórdia
sem omissão.

Fé
sem fanatismo.

  • Autor: Josi Moreira (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de setembro de 2026 10:10
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 6
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.