Nunca entendi
como alguém pode dizer-se bom
e, ainda assim, desejar o mal,
alimentar a crueldade,
ferir em silêncio
e assistir à dor
como quem nada tem a ver com ela.
Até que encontrei Hannah Arendt
e a sua inquietante
banalidade do mal.
Então compreendi
que o mal nem sempre chega gritando,
vestido de monstros,
com o rosto daquilo que tememos.
Às vezes,
ele chega de mansinho,
sentado entre os bons,
vestido de normalidade,
protegido pelo silêncio
de quem poderia dizer:
“Isso não está certo.”
O mal também cresce
quando ninguém o interrompe.
Cresce quando os olhos desviam,
quando a consciência negocia,
quando a covardia se disfarça de prudência,
quando o medo pede silêncio
e o silêncio passa a ser chamado de paz.
E então penso em Cristo.
Aquele que não escolheu o silêncio
diante da injustiça.
Aquele que tocou os intocáveis,
acolheu os rejeitados,
enfrentou os poderosos,
defendeu a verdade
e pagou o preço
por não transformar a fé
em mera conveniência.
Por isso me pergunto:
Que espécie de cristianismo é esse
que conhece a história de Jesus,
carrega Seu nome nos lábios,
mas se cala
quando sua fé é atacada,
quando sua Igreja é desrespeitada,
quando seus símbolos são profanados,
quando aquilo que considera sagrado
é tratado como motivo de escárnio?
Não falo de vingança.
Cristo nunca ensinou vingança.
Falo de coragem.
Porque defender a fé
não é odiar quem pensa diferente.
Defender o sagrado
não é perseguir o outro.
E levantar a voz contra a injustiça
não significa abandonar o amor.
Há um abismo
entre amar o inimigo
e ser indiferente ao mal.
Jesus ensinou o primeiro.
Nunca ensinou o segundo.
Talvez esse seja
um dos grandes perigos do nosso tempo:
não o mal que se apresenta como mal,
mas o mal que encontra
pessoas boas demais para combatê-lo.
Pessoas que veem,
mas não querem se envolver.
Que sabem,
mas preferem não falar.
Que discordam,
mas permanecem caladas
para não perder amizades,
status, conforto
ou comodidade.
E assim, pouco a pouco,
o absurdo se torna comum,
a crueldade se torna rotina,
a ofensa vira entretenimento
e a injustiça aprende
a morar dentro da normalidade.
Foi então que entendi:
nem todo silêncio é paz.
Às vezes,
o silêncio é apenas
o lugar onde o medo se esconde.
E talvez a pergunta mais difícil
não seja:
“Por que os maus fazem o mal?”
Mas:
“Por que os bons, vendo o mal,
decidem permanecer calados?”
Porque quando a injustiça bate à porta,
a neutralidade nem sempre é neutralidade.
Às vezes,
é apenas o conforto
de não querer pagar
o preço da verdade.
E eu prefiro lembrar de Cristo
não como aquele que se calou
para preservar a própria imagem,
mas como aquele que,
mesmo sabendo o preço,
permaneceu de pé.
Porque há momentos
em que falar é necessário.
Há momentos
em que defender é necessário.
Há momentos
em que permanecer em silêncio
também é uma escolha.
E quando chegar esse momento,
que Deus me livre
de ser tão “bom”
a ponto de não ter coragem
de enfrentar o mal.
Que me dê amor
sem covardia.
Misericórdia
sem omissão.
Fé
sem fanatismo.