No princípio, o pano e a porcelana tinham voz. O quarto era um reino suspenso, intocável, Onde o relógio esquecia de bater por nós, E cada confidência era um pacto inquebrável.
Minhas bonecas contavam segredos do vento, Debatiam os rumos de chás invisíveis. Emprestávamos almas, dividíamos o alento, Habitantes de um mundo de coisas possíveis.
Mas a vida se esvai a cada instante mudo. Os ponteiros giraram, desmanchando o som, O pó fez morada no antigo veludo, E o silêncio assumiu o seu gélido dom.
Hoje elas descansam no breu do armário, Como peças que voltam à caixa no fim da partida. Já não falam de sonhos, nem de um tempo imaginário, Mas guardam intocado o eco da minha antiga vida.
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Autor:
Poesia Abandonada (
Offline) - Publicado: 24 de setembro de 2026 11:03
- Categoria: Não classificado
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