Poesia Abandonada

Quando minhas bonecas falavam.

 

No princípio, o pano e a porcelana tinham voz. O quarto era um reino suspenso, intocável, Onde o relógio esquecia de bater por nós, E cada confidência era um pacto inquebrável.

Minhas bonecas contavam segredos do vento, Debatiam os rumos de chás invisíveis. Emprestávamos almas, dividíamos o alento, Habitantes de um mundo de coisas possíveis.

Mas a vida se esvai a cada instante mudo. Os ponteiros giraram, desmanchando o som, O pó fez morada no antigo veludo, E o silêncio assumiu o seu gélido dom.

Hoje elas descansam no breu do armário, Como peças que voltam à caixa no fim da partida. Já não falam de sonhos, nem de um tempo imaginário, Mas guardam intocado o eco da minha antiga vida.