A Tribuna da Coragem: Lula e a Voz do Sul Global na ONU

Francisco Claudio Claudio Gia

A Tribuna da Coragem: Lula e a Voz do Sul Global na ONU

Por Claudio Gia
Macau/RN, 24 de setembro de 2026

O Estadista que Fez da ONU sua Casa

Há vinte e três anos, um operário nordestino subiu pela primeira vez à tribuna mais alta do mundo. Não levava consigo o sotaque empolado dos diplomatas de carreira, nem as fichas encomendadas pelos centros de poder. Levava a fome, a esperança e a teimosia de um povo que aprendeu a sobreviver apesar de tudo. Naquele 2003, o mundo ainda ardia sob o impacto da Guerra do Iraque, e Lula colocou a erradicação da fome como tarefa civilizatória no centro da agenda global.

Duas décadas depois, aquele mesmo homem se tornou o chefe de Estado brasileiro que mais vezes discursou na Assembleia Geral da ONU. Em 22 de setembro de 2026, ele subiu pela décima vez à tribuna, consolidando um recorde histórico: em três mandatos, Lula só não compareceu à abertura da Assembleia em 2010. Nenhum outro presidente brasileiro — e poucos líderes mundiais — acumula tamanha presença no plenário das Nações Unidas.

A Força de um Discurso que Nasce da Vida

O que distingue Lula não é apenas a frequência, mas a natureza de sua fala. Enquanto muitos chefes de Estado se apegam a teleprompters e discursos encomendados, o presidente brasileiro carrega para a tribuna a autenticidade de quem aprendeu a falar com o povo antes de falar para o mundo. Em 2025, por exemplo, enquanto Donald Trump abandonava o teleprompter para improvisar narrativas confusas, Lula discursou por dezoito minutos com firmeza e clareza, escutado atentamente por delegações de todo o planeta.

A trajetória de seus discursos revela uma evolução que acompanha a própria história do mundo. Em 2003, Lula ainda acreditava no papel “insubstituível” da ONU na promoção da paz e da justiça. Em 2023, diante de uma organização cada vez mais “esvaziada e paralisada”, passou a denunciar sua impotência. Em 2025, afirmou que a autoridade da ONU estava “em xeque”. Em 2026, foi além: disse que a organização atravessa “seu momento mais crítico” e que a credibilidade das Nações Unidas “nunca esteve tão baixa”.

E não se trata de pessimismo, mas de lucidez. Lula não critica a ONU por criticar. Critica porque acredita nela. Critica porque sabe que o multilateralismo só funciona quando os povos do Sul Global têm voz. E é exatamente essa voz que ele empresta à tribuna.

A Ponte entre Mundos e a Recusa da Subordinação

Ao longo de seus discursos, Lula construiu uma posição geopolítica rara: a de ponte entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul. Não por cálculo diplomático, mas por convicção. Em 2026, diante de um plenário atento, ele foi categórico: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A frase, aplaudida intensamente, resume uma trajetória de recusa à subordinação.

Lula denunciou o que chamou de “tentações hegemônicas” na América Latina e no Caribe, região marcada pela proximidade com a maior potência militar do mundo. Criticou a interferência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos. E fez uma escolha retórica que define seu legado: “Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”.

Palavras assim não saem de cartilhas. Saem da experiência de um líder que viu seu país ser respeitado e depois humilhado, que testemunhou o Brasil sair do mapa da fome e depois voltar a ele. A ONU, para Lula, nunca foi um palco para vaidade. Foi um instrumento de justiça social global.

O Legado de uma Voz que Não se Cala

Em 2024, ao abrir a 79ª Assembleia Geral, Lula defendeu uma ampla reforma da ONU, com maior representatividade para os países em desenvolvimento e a inclusão de temas como a regulação das big techs, a inteligência artificial e a defesa da soberania digital. Em 2026, foi além: denunciou o “genocídio de mulheres e crianças perpetrado pelo Governo de Netanyahu” em Gaza, condenou os atos terroristas do Hamas e criticou o embargo econômico contra Cuba como “castigo coletivo” a dez milhões de pessoas.

Essa coragem política não é gratuita. Custa caro. Custa sanções, pressões, isolamento. Mas Lula nunca recuou. Porque sabe que a verdadeira força de um líder não está em agradar os poderosos, mas em representar os que não têm voz.

Enquanto o establishment global assiste estupefato a um presidente latino-americano ditar o ritmo do debate mundial, a história registra o instante exato em que a diplomacia da coragem tomou o lugar da submissão. Lula não fala pela ONU. Fala pela fome que ainda assola o mundo, pela soberania dos povos emergentes, pela paz que insiste em não chegar. Fala pelo Sul Global que se recusa a ser quintal.

E enquanto houver uma tribuna, haverá um Lula para ocupá-la. Não por teimosia, mas por dever. Porque a luta não termina quando o discurso acaba. Ela recomeça a cada amanhecer, a cada aplauso, a cada silêncio que se recusa a aceitar o mundo como ele é.

  • Autor: Claudio Gia (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 24 de setembro de 2026 00:45
  • Categoria: Não classificado
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