QUANDO O QUE ESCORRE NÃO É SANGUE

Ayalah Verônica Berg

 

Quando abres os olhos, o mundo desmonta
relógios que sangram números verdes.
Os minutos são larvas brilhantes,
e o futuro—ah, o futuro—
um cristal rachado na garganta.
Vida e Morte mastigam meu peito
com pegadas de âmbar e aço.
Seus passos deixam marcas de fumaça—
meu coração, um mapa
de ruínas em câmera lenta.
 
O pior artista nos escreve como fadas,
mas nossas cores voam da tela,
gotejam no chão, viram serpentes
e sobem pelas cortinas do tempo.
Agora somos um delírio ambulante:
eu, a fada de veneno e mel,
tu, o anjo com asas de formiga...
e o amor, um cogumelo azul
crescendo no caos sem fim.
 
Se apertarmos os olhos,
talvez o universo desabe em sílabas secas,
e tudo—tudo—seja apenas
o riso de um deus ébrio
escorrendo pelas nossas pernas. 
 
 
Quando o que escorre não é sangue 
 de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 23 de setembro de 2026 12:12
  • Comentário do autor sobre o poema: "O desejo não tem objeto. O desejo é o próprio desejo. O desejo é a falta. E eu sou a falta." –Clarice Lispector
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 14
  • Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Rogério, Michel F.M., Morlock


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