Ayalah Verônica Berg

QUANDO O QUE ESCORRE NÃO É SANGUE

 

Quando abres os olhos, o mundo desmonta
relógios que sangram números verdes.
Os minutos são larvas brilhantes,
e o futuro—ah, o futuro—
um cristal rachado na garganta.
Vida e Morte mastigam meu peito
com pegadas de âmbar e aço.
Seus passos deixam marcas de fumaça—
meu coração, um mapa
de ruínas em câmera lenta.
 
O pior artista nos escreve como fadas,
mas nossas cores voam da tela,
gotejam no chão, viram serpentes
e sobem pelas cortinas do tempo.
Agora somos um delírio ambulante:
eu, a fada de veneno e mel,
tu, o anjo com asas de formiga...
e o amor, um cogumelo azul
crescendo no caos sem fim.
 
Se apertarmos os olhos,
talvez o universo desabe em sílabas secas,
e tudo—tudo—seja apenas
o riso de um deus ébrio
escorrendo pelas nossas pernas. 
 
 
Quando o que escorre não é sangue 
 de Ayalah Verônica Berg