Quero sentir e funcionar exatamente assim,
reinventar meus amores e aproximações.
E depois ir ao fundo do poço, anestesia geral e superstições...
[Quisera eu cair, mas eu sempre opto por ir]
[Ouroboros]
Quando quero alguma coisa, me aproximo, sinto, sinto momentaneamente.
E quando sinto, sinto aquilo, e aquilo perturba.
Ta na hora de recuar,
observar, isolar e tentar entender.
Entender mais o quê?
Do ciclo infinito, seguir, recuar e mudar...
[Ouroboros]
Algo acontece, deixou marca, e no meu âmago tento entender novamente o que aquilo significou.
E quando vejo, me dissocio de mim mesma,
e olha só, o tempo passou.
[E a serpente despretensiosa me acompanhou]
É mais o gostar da ideia de acontecimento que escapam ao planejamento,
como um certo alimento que perturba e machuca,
mas nunca sacia a fome e alivia a sede,
e sempre volto no meu próprio julgamento.
Abandono, me abandono, isolamento.
Pode aparecer até Deus ou Diabo oferecendo uma espécie de acolhimento.
Querer estar sozinha é diferente de estar presa ao próprio isolamento.
Poesia é construção, memória e persona,
e não necessariamente uma confissão.
Mas uso a escrita como uma forma de organizar,
aquilo que não consigo organizar diretamente.
Não necessariamente para resolver,
mas para dar forma e continuar tentando, tentando e querendo entender...
Entender mais o quê?? E pra quê??
[Ouroboros]
Madrugadas, pensamentos, memórias,
palavras, versos, caminhos,
voltas,
recuar, sentir, esquecer
tudo cíclico nessa trajetória.
[Ouroboros]
Desculpas, talvez eu esteja só um pouco obsessiva.
Obsessiva o suficiente em querer sentir,
sentir e entender freneticamente.
Então vou recuar, sumir,
me isolar pelas falhas
das minhas palavras, gestos e pensamentos.
[Ouroboros]
-
Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 23 de setembro de 2026 00:21
- Comentário do autor sobre o poema: Fazer terapia é sentar de frente para alguém e, aos poucos, desalinhar as linhas que estão emboladas dentro dos nossos pensamentos. É poder olhar para nós mesmos por outra perspectiva, por outra ótica. Confesso que criei uma paixão pelo divã. Confesso também que levar os ensinamentos da terapia para o cotidiano é árduo, porque compreender alguma coisa não significa, necessariamente, conseguir agir diferente na primeira oportunidade. Mas, no fim, vale a pena. “Obsessão poética de sentir” é um espelhamento. Em alguns momentos, eu me reconheço em atitudes de pessoas próximas ou que já foram próximas de mim. Percebo comportamentos que, de alguma maneira, também existem em mim. E talvez a parte mais difícil não seja reconhecer o padrão, mas interrompê-lo antes de repetir o mesmo processo novamente. Hoje, depois de uma prova que eu não estava nem um pouco a fim de fazer, sentei na poltrona grande e confortável do consultório, tirei o tênis e cruzei as pernas em posição de flor de lótus, peguei todas as almofadas e enfiei entre minhas pernas e as abraçadeiras. A luz baixa e amarelada, com algumas plantas de Pacová espalhada pela sala, deixava o ambiente ainda mais tranquilo, e um macramê pendurado sobre o grande abajur e atrás dele na parede, completava aquela cena quase silenciosa. Foi então que disse ao meu terapeuta que iria parar de escrever, me ausentar de tudo e procurar novos "roles" vulgo, novos hobby. Que, mais uma vez, iria excluir tudo. E ele simplesmente me devolveu aquilo como um soco no rosto. “Mas você vai repetir a mesma coisa, já fez isso. Por quê? E pra quê?” Fiquei pensando. Sorri e respondi dando os ombros.. “Ahh, porque eu quero, sei lá, vergonha, medo, insegurança dos meus pensamentos.” E o infeliz insistiu... “Mas você não estava se sentindo bem até esses dias? Voltando a escrever, voltando à sua rotina?” “Sim. E ainda estou, meio obssessiva, querendo até compor.” “E então?” E então.... Talvez seja justamente aí que a poesia encontre a psicologia por trás dessa mania. Os ciclos repetitivos não acontecem necessariamente porque não sabemos o que estamos fazendo. Às vezes, sabemos. Reconhecemos o padrão, conseguimos enxergar onde ele começa e até imaginamos onde ele vai terminar. Ainda assim, existe alguma coisa familiar naquele caminho que nos faz retornar. Talvez porque o conhecido, mesmo quando nos faz mal, possa parecer mais seguro do que aquilo que ainda não conhecemos. O problema é que esse conforto é momentâneo. Ele alivia a tensão de agora, mas não necessariamente resolve aquilo que nos levou até ali. E foi pensando nisso que escrevi “Obsessão poética de sentir”. Não como uma indireta, nem como uma tentativa de explicar alguém. Mas como um espelho. Um espelho no qual, enquanto tentava compreender determinados comportamentos, acabei encontrando alguns dos meus próprios.
- Categoria: Reflexão
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- Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.

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