Ana P. Gonçalves

Obsessão poética de sentir

Quero sentir e funcionar exatamente assim, 
reinventar meus amores e aproximações.
E depois ir ao fundo do poço, anestesia geral e superstições...
            [Quisera eu cair, mas eu sempre opto por ir]
            [Ouroboros]

Quando quero alguma coisa, me aproximo, sinto, sinto momentaneamente.
E quando sinto, sinto aquilo, e aquilo perturba.

Ta na hora de recuar,
observar, isolar e tentar entender.
Entender mais o quê? 
Do ciclo infinito, seguir, recuar e mudar...
                          [Ouroboros]

Algo acontece, deixou marca, e no meu âmago tento entender novamente o que aquilo significou.
E quando vejo, me dissocio de mim mesma,
e olha só, o tempo passou.
                           [E a serpente despretensiosa me acompanhou]

É mais o gostar da ideia de acontecimento que escapam ao planejamento,
como um certo alimento que perturba e machuca,
mas nunca sacia a fome e alivia a sede, 
e sempre volto no meu próprio julgamento.


Abandono, me abandono, isolamento.
Pode aparecer até Deus ou Diabo oferecendo uma espécie de acolhimento.
Querer estar sozinha é diferente de estar presa ao próprio isolamento.

Poesia é construção, memória e persona, 
e não necessariamente uma confissão.
Mas uso a escrita como uma forma de organizar, 
aquilo que não consigo organizar diretamente. 
Não necessariamente para resolver,
mas para dar forma e continuar tentando, tentando e querendo entender...
Entender mais o quê?? E pra quê??
                               [Ouroboros]

Madrugadas, pensamentos, memórias,
palavras, versos, caminhos,
voltas,
recuar, sentir, esquecer
tudo cíclico nessa trajetória. 
                              [Ouroboros]

Desculpas, talvez eu esteja só um pouco obsessiva.
Obsessiva o suficiente em querer sentir,
sentir e entender freneticamente.
Então vou recuar, sumir,
me isolar pelas falhas 
das minhas palavras, gestos e pensamentos.

                 [Ouroboros]