Falsa calmaria

Ana Gonçalves

E minha fantasia, discos e poesias Manias desvairadas de sobreposição 

Já sinto aquela mesma sintonia

Da alta complexidade que é seu tom

 

Orgulho fora de sincronia 

Sob o mesmo lençol fazemos o que somos bons

E os nossos corpos juntos têm uma rima

E tudo lá fora fica na abstração

 

Se é desejo, desassossego

Que a mente pede pra ouvir aquele mesmo som

Te trago feito fumaça, num lapso dentro do peito.

Eu sou do atrito, do groove,

você é silêncio de voz e violão.

 

A tua sombra assombra os meus dias 

Desenterrando minhas velhas teimosias,

desmanchando as falsas calmarias, rasgando a paz das minhas covardias...

 

Vem essa onda quente e envolvente,

que me desapruma o ar

Não é falta de rumo, é vertigem e asco de recomeçar.

Com o mundo nas mãos, não soubemos guiar, agora o corpo cobra o que a mente quis frear.

A gente sabe onde isso vai dar, mas tem pavor do chão queimar.

 

Nem todo recuo é desistência.

Às vezes é só susto da própria potência.

Dois tons que já sabem a rota de cor, desarmando o medo no calor.

 

Desmanchando as falsas calmarias... 

Eu no jazz, no blues, no soul, na tensão,

você na voz e violão.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de setembro de 2026 00:17
  • Comentário do autor sobre o poema: Recentemente decidi parar de negociar com o medo e dar vazão ao que queima por dentro. Aos treze anos, eu desenhava, inventava histórias e rascunhava versos. Lembro do Rafael Longo Teixeira, um amigo que já tocava e escrevia na época, lendo o que eu fazia e achando aquilo incrível. Mas o entusiasmo durou pouco. Aos quatorze, cheguei da aula e encontrei minha mãe e meu tio saindo do meu quarto, rindo. Tinham encontrado e visto meu caderno sobre minha mesa. Minha mãe comentou rindo de um trauma antigo dela cantando na escola, e aquela risada me atravessou. Fechei o caderno, guardei numa caixa de documentos e tranquei aquela versão completa de mim por anos e apenas admirava os livros e versos. As vezes ainda desenho e escrevo aqui e lá... Mas ontem, mexendo no quartinho de bagunça da casa da minha avó antes de terminar de organizar as minhas coisas, dei de cara com ele. Empoeirado, rabiscado e intacto. Ao ler folha por folha (espirrando e me coçando pela infeliz alergia ao ácaro), senti um alívio imenso por ver que aquela garota ainda existia ali dentro, misturada ao peso do bloqueio que carreguei tanto tempo. Passei o dia digerindo isso até que as palavras transbordaram no papel enquanto eu estudava para a prova de hoje. Hoje, no ônibus a caminho da faculdade, a faísca acendeu de novo. O medo do julgamento e da rejeição me paralisou por tempo demais, mas agradar aos outros nunca foi a minha função. Criar, sentir, botar a voz no mundo e não me calar é parte inegociável da minha essência. Resolvi então reabrir de novo, mais uma parte da insignificância nesse mundão. Mais uma tentativa de composição. Obs: Não é um pedido, não é uma tentativa de provocar alguém ou qualquer coisa. É só um sintoma que precisava encontrar uma forma de existir fora de mim. Como tantas outras coisas...
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.
Comentários +

Comentários1

  • Odiléia

    Oi, Ana! Muito lindo seu texto sobre a falsa calmaria...É sobre se conhecer de verdade! Muito legal seu comentário também! Uma simples tarefa de rotina doméstica te trouxe até aqui. A vida sempre pode surpreender. E assim vivemos em falsa calmaria. Obrigada pelo poema e por sua história.

    • Ana Gonçalves

      Oi, Odileia! Seja muito bem-vinda e obrigada. Concordo plenamente com você, refletir sobre as nossas ações é fundamental, desde as pequenas tarefas do dia a dia até esses momentos de falsa calmaria. Espero que se sinta acolhida por aqui, estou ansiosa para ler o que você escreve!



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