E eu me sinto tão sem graça
Da graça de sentir valor
Do tempo em que fomos graça
Do seu toque e o seu sabor
Seu beijo, viciante, eu tolero
Com gosto de menta e cigarro
E o seu cheiro amadeirado
Sutil vestígio do passado
A mesa exposta às oito da manhã
O encontro do vento e o sol a nosso favor
Me peguei contemplando o passado
Tentando lembrar onde foi que mudou
Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?
Eu já não sei se era você
Ou se era eu querendo acreditar
Se aquele gosto ainda mora em mim
Ou se eu aprendi a lembrar
É, tem coisa que o tempo não leva
Só muda de lugar
E tem memória que a gente alimenta
Só pra ter onde voltar
Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?
Pode ser que eu tenha guardado
Mais do que realmente aconteceu
Um pedaço seu na memória
E outro tanto que inventei eu
E aquela manhã ainda existe
Na fresta de alguma lembrança
O sol batendo sobre a mesa
E eu acreditando na esperança
Mas hoje, quando penso em nós
Já não sei dizer o que ficou
Se foi seu beijo com gosto de cigarro
Ou a versão de mim que aquele beijo despertou
Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?
E se eu sentir falta, tudo bem
Nem toda saudade pede volta
Às vezes a gente só visita
O lugar onde uma versão nossa morava
E eu me sinto tão sem graça
Mas já não é por falta de valor
É que eu descobri que algumas lembranças
Só sabem conservar o sabor
Do seu toque, do seu cheiro
Da manhã, da mesa, do calor
Eu não sei se sinto falta de você
Ou da mulher que eu fui quando você me olhou.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de setembro de 2026 23:56
- Comentário do autor sobre o poema: Penso (bem opinião minha mesmo) que todo artista, seja na pintura, na escrita, no cinema ou em qualquer outra forma de arte, acaba, de alguma maneira, revisitando aquilo que carrega no lugar mais profundo de si... Revive memórias, sentimentos, experiências e transforma tudo isso em alguma coisa que possa ser colocada para fora. Para mim, organizar sentimentos, remexer nas memórias e tentar encontrar outras palavras para aquilo que um dia foi vivido é uma das formas mais bonitas de expressão. Hoje, escrever ou pelo menos tentar escrever algo que daria uma versão de canção, justamente num dia em que choveu o dia inteiro e estando no lugar onde tudo começou, foi uma das maneiras que encontrei de aliviar um pouco o que estava ainda aqui dentro. Não é um pedido, não é uma tentativa de provocar qualquer coisa. É só um sintoma que precisava encontrar uma forma de existir fora de mim. Como tantas outras coisas...
- Categoria: Não classificado
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Offline)
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