Ana Gonçalves

O que a mente constrói

E eu me sinto tão sem graça
Da graça de sentir valor
Do tempo em que fomos graça
Do seu toque e o seu sabor

Seu beijo, viciante, eu tolero
Com gosto de menta e cigarro
E o seu cheiro amadeirado
Sutil vestígio do passado

A mesa exposta às oito da manhã
O encontro do vento e o sol a nosso favor
Me peguei contemplando o passado
Tentando lembrar onde foi que mudou

Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?

Eu já não sei se era você
Ou se era eu querendo acreditar
Se aquele gosto ainda mora em mim
Ou se eu aprendi a lembrar

É, tem coisa que o tempo não leva
Só muda de lugar
E tem memória que a gente alimenta
Só pra ter onde voltar

Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?

 Pode ser que eu tenha guardado
Mais do que realmente aconteceu
Um pedaço seu na memória
E outro tanto que inventei eu

E aquela manhã ainda existe
Na fresta de alguma lembrança
O sol batendo sobre a mesa
E eu acreditando na esperança

Mas hoje, quando penso em nós
Já não sei dizer o que ficou
Se foi seu beijo com gosto de cigarro
Ou a versão de mim que aquele beijo despertou

Eu sinto falta de você
Ou sinto falta do que foi?
Ou sinto falta de quem eu era
Ou do que a mente constrói?

E se eu sentir falta, tudo bem
Nem toda saudade pede volta
Às vezes a gente só visita
O lugar onde uma versão nossa morava

E eu me sinto tão sem graça
Mas já não é por falta de valor
É que eu descobri que algumas lembranças
Só sabem conservar o sabor

Do seu toque, do seu cheiro
Da manhã, da mesa, do calor
Eu não sei se sinto falta de você
Ou da mulher que eu fui quando você me olhou.