Quem viveu em meu lugar

Ana Gonçalves

Passei anos aprendendo a caber

naquilo que esperavam de mim,

colecionando maneiras de ser

que parecessem certas até o fim.

 

Fui filha antes de ser inteira,

profissional antes de me escutar,

amiga, neta, mulher, companheira,

tantas versões dispostas a agradar.

 

E em cada papel desempenhado

havia um pouco do que esperavam ver,

até que um dia, diante do espelho,

já não soube distinguir

o que era escolha

do que aprendi a parecer.

 

Quando foi que comecei

a medir meu valor pela medida alheia?

Quando a aprovação virou alimento

e a própria vontade, uma coisa que se adia?

 

Quanto de mim ficou para depois

enquanto eu cumpria o que cabia?

Quantas vezes disse “sim” por inteiro

quando alguma parte minha

silenciosamente dizia “não”?

 

Talvez eu tenha passado tempo demais

confundindo aceitação com pertencimento,

e chamado de identidade

aquilo que nasceu do medo

de perder acolhimento.

 

Construí uma personagem tão convincente

que quase me convenceu também.

Ela sabia como falar,

como sorrir,

como agradar,

como ser exatamente aquilo

que esperavam de alguém.

 

Mas quem respirava por trás dela?

Quem escolhia quando ninguém olhava?

Quem permanecia quando os papéis terminavam?

Quem existia depois que a porta se fechava

e todas as expectativas se calavam?

 

Talvez eu nunca tenha descoberto.

 

Talvez tenha vivido conforme acreditava ser,

não conforme poderia ser,

não conforme merecia,

não conforme diziam que eu conseguiria,

mas conforme a imagem que construí

e, de tanto repetir, passei a defender.

 

E se uma crença sobre mim

pode moldar a vida que conduzo,

então talvez seja hora

de investigar quem colocou essas palavras

dentro da minha própria voz.

 

Não quero mais ser a soma

dos papéis que aprendi a desempenhar.

 

Quero saber o que permanece

quando ninguém precisa de uma filha,

de uma profissional,

de uma amiga,

de uma mulher exemplar,

de uma versão conveniente de mim.

 

Quero descobrir o que existe

quando não há plateia,

quando não há aprovação,

quando não há necessidade de provar

que sou digna de permanecer.

 

Porque talvez liberdade

não seja inventar uma nova versão,

mas finalmente retirar das mãos dos outros

o direito de escrever minha definição.

 

E então fica a pergunta

que durante anos eu não soube fazer,

quem esteve vivendo em meu lugar

enquanto eu aprendia a ser aceita?

 

E, ainda mais difícil,

quem eu seria

se não precisasse ter medo

daquilo que encontraria

quando finalmente fosse eu?

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 19 de setembro de 2026 16:21
  • Categoria: Carta
  • Visualizações: 6
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