Passei anos aprendendo a caber
naquilo que esperavam de mim,
colecionando maneiras de ser
que parecessem certas até o fim.
Fui filha antes de ser inteira,
profissional antes de me escutar,
amiga, neta, mulher, companheira,
tantas versões dispostas a agradar.
E em cada papel desempenhado
havia um pouco do que esperavam ver,
até que um dia, diante do espelho,
já não soube distinguir
o que era escolha
do que aprendi a parecer.
Quando foi que comecei
a medir meu valor pela medida alheia?
Quando a aprovação virou alimento
e a própria vontade, uma coisa que se adia?
Quanto de mim ficou para depois
enquanto eu cumpria o que cabia?
Quantas vezes disse “sim” por inteiro
quando alguma parte minha
silenciosamente dizia “não”?
Talvez eu tenha passado tempo demais
confundindo aceitação com pertencimento,
e chamado de identidade
aquilo que nasceu do medo
de perder acolhimento.
Construí uma personagem tão convincente
que quase me convenceu também.
Ela sabia como falar,
como sorrir,
como agradar,
como ser exatamente aquilo
que esperavam de alguém.
Mas quem respirava por trás dela?
Quem escolhia quando ninguém olhava?
Quem permanecia quando os papéis terminavam?
Quem existia depois que a porta se fechava
e todas as expectativas se calavam?
Talvez eu nunca tenha descoberto.
Talvez tenha vivido conforme acreditava ser,
não conforme poderia ser,
não conforme merecia,
não conforme diziam que eu conseguiria,
mas conforme a imagem que construí
e, de tanto repetir, passei a defender.
E se uma crença sobre mim
pode moldar a vida que conduzo,
então talvez seja hora
de investigar quem colocou essas palavras
dentro da minha própria voz.
Não quero mais ser a soma
dos papéis que aprendi a desempenhar.
Quero saber o que permanece
quando ninguém precisa de uma filha,
de uma profissional,
de uma amiga,
de uma mulher exemplar,
de uma versão conveniente de mim.
Quero descobrir o que existe
quando não há plateia,
quando não há aprovação,
quando não há necessidade de provar
que sou digna de permanecer.
Porque talvez liberdade
não seja inventar uma nova versão,
mas finalmente retirar das mãos dos outros
o direito de escrever minha definição.
E então fica a pergunta
que durante anos eu não soube fazer,
quem esteve vivendo em meu lugar
enquanto eu aprendia a ser aceita?
E, ainda mais difícil,
quem eu seria
se não precisasse ter medo
daquilo que encontraria
quando finalmente fosse eu?