Não confunda presença com serviço - O abrigo também precisa de abrigo

Ana Gonçalves

Tem quem aprenda a ser abrigo

antes mesmo de conhecer a própria tempestade,

a recolher os cacos alheios

com as mãos ainda cheias de cortes.

 

Há quem faça do cuidado

uma espécie de ofício silencioso,

escuta dores que não lhe pertencem,

acomode tristezas em cômodos

onde já não sobra espaço.

 

E tudo parece tão fácil

nas mãos de quem sempre compreende.                  

Ninguém vê o peso

de uma porta que nunca se fecha,

nem pergunta quanto custa

manter a luz acesa

para quem chega no escuro.

 

A empatia, quando confundida com obrigação,

vira uma casa sem quartos para o próprio morador.

E então , aos poucos,

a dor dos outros ganha nome,

endereço, história e colo,

enquanto a própria permanece

sem sequer uma cadeira à mesa.

 

Talvez por isso alguns corações

sejam tão bons em oferecer repouso

e tão desajeitados em descansar.

 

Não é falta de sentimento,

é excesso dele.

É ter passado tanto tempo

sendo chão

que já não se reconhece

a necessidade de ter onde cair.

 

Mas nenhum abrigo deveria desaparecer

para que outro permaneça de pé.

Existe uma diferença silenciosa

entre ser necessário

e ser amado,

o primeiro exige presença,

o segundo permite existência.

 

Que um dia a casa compreenda

que não nasceu apenas para receber.

Que também pode fechar as portas,

apagar as luzes,

silenciar os cômodos

e descansar dentro de si.

 

Há vidas inteiras

tentando salvar todo mundo

sem perceber que,

por trás de tanta utilidade,

também havia alguém

esperando ser encontrado.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 18 de setembro de 2026 01:58
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 1


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