Tem quem aprenda a ser abrigo
antes mesmo de conhecer a própria tempestade,
a recolher os cacos alheios
com as mãos ainda cheias de cortes.
Há quem faça do cuidado
uma espécie de ofício silencioso,
escuta dores que não lhe pertencem,
acomode tristezas em cômodos
onde já não sobra espaço.
E tudo parece tão fácil
nas mãos de quem sempre compreende.
Ninguém vê o peso
de uma porta que nunca se fecha,
nem pergunta quanto custa
manter a luz acesa
para quem chega no escuro.
A empatia, quando confundida com obrigação,
vira uma casa sem quartos para o próprio morador.
E então , aos poucos,
a dor dos outros ganha nome,
endereço, história e colo,
enquanto a própria permanece
sem sequer uma cadeira à mesa.
Talvez por isso alguns corações
sejam tão bons em oferecer repouso
e tão desajeitados em descansar.
Não é falta de sentimento,
é excesso dele.
É ter passado tanto tempo
sendo chão
que já não se reconhece
a necessidade de ter onde cair.
Mas nenhum abrigo deveria desaparecer
para que outro permaneça de pé.
Existe uma diferença silenciosa
entre ser necessário
e ser amado,
o primeiro exige presença,
o segundo permite existência.
Que um dia a casa compreenda
que não nasceu apenas para receber.
Que também pode fechar as portas,
apagar as luzes,
silenciar os cômodos
e descansar dentro de si.
Há vidas inteiras
tentando salvar todo mundo
sem perceber que,
por trás de tanta utilidade,
também havia alguém
esperando ser encontrado.